A Voz da Névoa: Capítulo 9

Parte 12 – Jean!

 

Após o ocorrido na galeria, Dois Meia seguiu Um e Anne pelo confuso complexo que se mostrava até chegar numa área já conhecida: o dojo onde ele acordou inicialmente.

 

Ele não ficou chocado. Para ele, independente do que fizesse dali para frente, com certeza necessitária de algum espaço ‘seguro’.

 

“Bem, aqui é o lugar onde fomos apresentados… você já deve conhecer!”, disse Um respirando profundamente;

 

Dois Meia olhou de um lado para o outro, entre os móveis e o piso de madeira, analisando confusamente o lugar.

 

“Sentem-se…” Um continuou sem pressa; “162, vou te contar um segredo… o mundo é vermelho!”

 

“Como?”

 

“Isso mesmo, o mundo é vermelho! Além das colinas verdes e da névoa cinzenta, uma terra ‘plana’ e vermelha pode ser vista, sendo varrido pelos ventos fortes e gelados.”

 

Dois Meia não entendeu o motivo de Um para afirmar isso, porém ele ainda se mantinha animado, tentando entender o que havia por trás daquelas palavras.

 

“Nas torres do mundo, de todas as sitiadas, foi se dito que todas as escolas dos distritos D, E, e F deveriam estar isentas de história humana, sendo o motivo por trás desta, unicamente, para tornar manipulável as pessoas desse distrito. Veja, o mundo é vermelho pra mim, verde à aqueles das torres e cinza pra ti. Sabe onde quero chegar?”

 

Dois Meia não sabia o que responder, mas uma lembrança um pouco constrangedora o fez se alerta, já que ele não queria cometer o mesmo erro que já havia cometido uma vez, em seus sonhos.

 

“Tod… todos tem uma forma de vê o mundo?”

 

Um sorriu com a resposta.

 

“Óbvio, porém, bem, me responda, como cada um vê esse mundo?”

 

Dentro de seu peito, Dois Meia sentia o rugir, irritante, do seu peito, que aumentava. O fôlego se perdia. O interrogatório o deixava nervoso, parecia que, de alguma forma, nosso protagonista estava bem longe do seu lugar.

 

“Uns veem o mundo de mentira… e os outros o mundo de verdade…” 162 chutou, sob pressão.

 

“Isso… você está certo em parte!” Disse Um, segurando as mãos de Dois Meia ternamente, enquanto perfurava os olhos dele com os seus; “porém, a verdade não é absoluta! Entenda: a mentira, quando acreditada por qualquer indivíduo, se torna verdade, não para mim, que sei ela de fato, mas para aqueles que não sabem!”

 

Dois Meia compreendeu. Era estranho entender tão facilmente, mas ele soube que realmente aquelas palavras faziam algum sentido, pelo menos no que ele viu em sua vida, fazia bastante sentido em tudo. Por isso, em sua boca, palavras gaguejadas num som inaudível foram proferidas enquanto Um continuava.

 

“Eu, Um, fundadora do estilo M-D, baseio minha filosofia em apenas uma coisa: Na verdade perfeita! Verdade essa que é buscada pelo meu mundo obscuro de ideias, que torna minha mente em reflexos e suposições das quais estudo para torná-la verdade. Assim, a verdade se torna, para mim, verdadeira, tornando o caminho que trilho claro como o dia!”

 

Vendo e ouvindo, Dois Meia sentiu em seu peito uma pontada de admiração e excitação. O que aquela causava com o seu discurso direto e, de alguma forma, profundo, não era algo facilmente definível, pelo menos não para o jovem Dois Meia que a escutava boquiaberta.

 

“Dois Meia, veja bem: a primeira e única verdade vem da perfeição e a perfeição não faz parte desse mundo doloroso. A verdade é a perfeição que se alastra por cópias. Tudo que se manifesta aos seus sentidos, na verdade, é uma cópia mal feita de uma ideia perfeita!”

 

Ao lado, Dois Meia olhou de de rabo de olho para Anne, que aparentava ser penetrada pelas palavras, enquanto segurava excitadamente o peito e, dos olhos, algumas lágrimas de emoção caíam. Dois Meia voltou seus olhos para Um, pois ele sentia que seria perigoso desviar a visão por mais tempo.

 

“Veja cá, jovem. Você é uma cópia mal feita, logo, não é verdadeiro. Então, para se tornar uma verdade, num ideal, precisa se assemelhar ao mínimo com alguém que não é só um número. Para tal, te nomearei primeiro, pela forma informal e formal. Assinarei qualquer burocracia chata da qual mostrara-te como alguém digno de nome. Segundo, treinarei o seu corpo, até o ápice, e sua mente, para fazê-lo um sábio. No fim, realmente, será uma pessoa de verdade dentro deste mundo de discórdia. Excitado?”

 

Dois Meia concordou com a cabeça.

 

“Ótimo! Então, Dois Meia, órfão do casal de número 246.137.589 e 290.137.598, pesquisei um pouco sobre sua vida por motivos óbvios e descobri que você é uma prole exemplar, pelo menos naquele bairro imundo e fedorento, do qual peço pra você esquecer logo.” Um pôs um sorriso sarcástico no rosto enquanto continuava; “Estudante com méritos, pelo menos em sua antiga posição – parece que foi muito bem nos exames do distrito –, trabalhador diligente, com apenas uma falta, sem reclamações, um digno fazedor de horas extras, porém pouco sociável. Sem muitos amigos, aparentemente, e nenhuma namorada, sofria bullying constante das outras crianças naquele orfanato. Sua vida era dura, talvez, principalmente pelo motivo que essa mesma que fora a causadora daquele enorme tumor crescendo em seu pulmão …”

 

Dois Meia olhava para Um, calado, enquanto, no íntimo, desejava calar Um com suas frágeis e pálidas mãos. Sua vida, ele conhecia bem, por isso, não precisava ser narrada por terceiros.

 

“… Porém” Um continuou, enquanto balançava sua cabeça mecanicamente em desaprovação; “Sua vida era dura pelo único motivo de que você a permitiu ser como tal, o que é desgastoso. Se esconder da realidade e tomar o caminho honesto? Pfft, isso não existe, pelo menos não na sua condição. Você tentou fugir do caminho pré proposto pela realidade, tentado conquistar o mundo com o seu trabalho, apenas pela covardia de morrer como um marginal, sendo encontrado em algum beco sujo ou vala, perfurado de balas, ou torturado por golpes. Dois Meia, você podia ter protestado contra sua realidade e destruído a moral em uma revolução própria, mas decidira ficar preso no discurso de seus superiores, se tornando num pedaço de merda, escondido entre as saías daquele que injetava urânio em seu peito! Por isso, o nome que eu escolho pra você é Jean/7.”

 

 

“Baseado no personagem de um romance bem importante no passado, chamado Les’miserables de Victor Hugo. O personagem principal, Jean Valjean, foi um criminoso que vivia por fugir de sua dura realidade, convencido pelas palavras de um bispo de uma província francesa afastada – caso não saiba, França foi uma importante nação antes da queda. Ele começou como um honesto ladrão de pão, para um criminoso forçado a trabalhar nas galés, até se tornar em um fugitivo – fujão de sua própria identidade.”

 

Dois Me… digo, Jean, ou Seven, se preferir, falou em sua mente o nome diversas vezes, enquanto o peito, atravessado por tantas palavras dolorosas, já se desmanchava numa excitação da qual ele mesmo nem percebia.

 

“Jean, esse é o seu nome, agora você presencia a morte de um pequeno covarde! Grave na sua alma em branco, pois daqui em diante, você poderá morrer bem mais, até se tornar algo do qual nem sequer imagina.”