A Voz da Névoa: Capítulo 8

Parte 11 – O golpe das sombras!

 

Ninguém veio instruí-lo. O tempo passou e ninguém sequer veio para falar qualquer coisa com ele. Ele decidiu sair de seu quarto, então, com uma bandeja vazia na mão, para se perder, em seguida, pelo corredor. Ele não sabia ao certo como chegara e fazia menos ideia ainda de como sair, forçando-o a olhar confuso de um lado e para o outro buscando algo como referência.

 

Ele andou em direção a esquerda, continuou sem saber para onde ia pela direita até que se viu em frente a um quarto, com uma porta de madeira clara com uma placa escrita ‘Maid-0’. Ele bateu à porta, inocentemente e ‘um quem é?’ surgiu no silêncio do corredor.

 

A porta se abriu, sem fazer ruídos, e uma mulher apareceu vestida com um longo vestido preto com detalhes brancos e uma toquinha branca.

 

“oh!” Ela disse com um pouco de espanto; “você é o … 162 … correto?”

 

Dois Meia concordou com a cabeça enquanto olhava admirado para a moça.

 

“sim, sou eu … pode me chamar de Dois Meia!”

 

A moça tinha uma aparência jovem, como se ela ainda tivesse nos seus vinte anos, porém mantinha um ar ancião, como o de uma avó ou uma tia.

 

“Minha senhora tinha me requisitado para ir até o seu quarto guardar sua louça suja” Ela disse com o seu ar sereno e sábio “porém, vê que você se voluntariou para vir até aqui me entregar os seus pratos me enche um pouco de surpresa! Bem já que é assim, me dê isso que eu levo para ser lavado!”

 

Nosso protagonista deu o prato relutante enquanto olhava para o chão, tentando resgatar um pingo de coragem. Ele compreendeu bem a moça, entendeu bem suas intenções e isso o havia dado alguma confiança, porém ainda havia em sua cabecinha uma paranoia. Uma paranoia que ele não entendia muito bem.

 

“o que eu faço agora?”

 

0 não entendeu.

 

“o que você faz? Não sei, você que sabe, eu apenas colocarei seu prato na cozinha, o resto você decide!”

 

As palavras foram breves e vagas, porém preencheu Dois Meia com um medo indescritível.

 

‘como assim eu decido?’ Ele se perguntou; ‘como isso pode ser possível de alguma forma!’

 

Desde o início Dois Meia foi jogado para um turbilhão de fatos que se desdobraram sem o seu consentimento, ele não sabia ao certo mais como decidir algo, tudo parecia se autodesenvolver, tornando essa pergunta totalmente ameaçadora ao nosso jovem.

 

“não fique parado aqui” a moça olhou para Dois Meia com um rosto severo, bem contrário que ele tinha visto segundos antes; “decida-se logo o que fazer e abra espaço para aqueles que já se decidiram!”

 

A moça empurrou Dois Meia de sua frente e falou baixinho enquanto olhava com o canto do olho:

 

“um morto é um homem fadado ao mesmo! Enfia suas dúvidas na goela e apenas faça!”

 

Dois Meia, como de praxe, não entendeu necas do que a moça disse, apenas ficando parado olhando ela virar pelo corredor. Na nuca, atrás dos seus esvoaçantes cabelos negros, uma cicatriz pouco visível foi meio observada pelo nosso protagonista confuso e inerte.

 

‘eu gostaria de entender … cada coisa’ Dois Meia se virou e andou; ‘parece que eu ainda estou vivendo minha antiga vida, como se tudo fosse o mesmo ainda!’

 

Dois estava pensativo enquanto virava a esquina do corredor passando em frente a uma porta com uma placa escrita ‘Anne’. Ele percebeu que, talvez, para não ter que decidir, ele deveria pensar, porém precisava se locomover e pensar, para ficar, de alguma forma, fora do mesmo, segundo ele próprio.

 

‘parece ser um pouco errado essas palavras, possivelmente morrerei ao virar o corredor, porém creio que há uma vida para mim aqui, ou melhor: parece que terei algo novo caso eu fique aqui!’

 

Dois Meia virou o corredor mais uma vez e seu peito bateu fraco, ver-se ainda vivo o impressionou bastante.

 

‘aparentemente ainda estou vivo, esse é o preço de ter tomado tantas decisões ontem – decisões que na verdade não foram tantas de verdade, apenas uma. Será que ainda sou o mesmo de verdade? Vejo que sim … porém, sinceramente, espero mudar de alguma forma.’

 

Olhando para as paredes brancas e piso de madeira, nosso protagonista continuou pelo corredor sem janela até descer uma escada, se encontrando numa sala estranha, escura e fria. Dentro, fotografias diversas de políticos, máquinas de guerra*, máquinas urbanas*, da polícia automatizada, de relevos e de ambientes, fotos panorâmicas e de qualquer outra coisa aleatória que pudesse se supor, se encontrava penduradas em linhas de neon pela sala.

 

‘fotos?’ Dois Meia que foi criado sem riquezas, nunca havia visto fotos que não fossem de propagandas, ou das teletelas que haviam nos bares e no trabalho – por mais que não gastasse muito tempo vendo-as; ‘o que são essas coisas?’

 

Ele ficou analisando as fotos uma por uma, tentando buscar alguma resposta.

 

‘fotos de mortos, fotos de armas, fotos de explosões, de engravatados*, de terra, de lugares bonitos … por que há tantas fotos assim? O que elas representam!’

 

Enquanto andava pela sala, vendo foto por foto, Dois Meia viu um fantasma. Esse fantasma, pálido, ia de lado a lado, tentando se esconder de sua vista, carregando em mãos algo mais frio que a morte, que refletia a quase escuridão da sala. Ele viu de relance atrás de relance, como se fosse uma ilusão de sua cabeça.

 

‘será que isso é um dos efeitos colaterais do golpe?’ Dois Meia continuou acompanhando as luzes; ‘mas para isso a magia daquela mulher terá que ser real … e eu teria que acreditar nesse absurdo …’

 

A luz se aproximava e Dois Meia não sentia muitas coisas, a não ser uma terrível contemplação quanto a sua própria loucura.

 

‘estou ficando preocupado, ver coisas do gênero pode ser um presságio extremamente ruim!’

 

O fantasma pulou e Dois Meia viu, lentamente, passar pela sua frente a pálida luz que visava o seu pescoço. Ele não entendeu o que a sua própria loucura planejava fazer, porém ele desviou, facilmente, sem compreender o próprio movimento, e pegou, com suas mãos fracas, aquilo que a luz pálida tencionava a ser.

 

‘mas o que?!’

 

Sem compreender ao certo, as luzes se ligaram na sala, apresentando um atônito fantasma de longos cabelos castanhos e intensos olhos verdes. Seus lábios, sem compreender o porquê de seu corpo estar imóvel a mercê do jovem magro e pouco treinado à sua frente, se contorceu a uma expressão horrível de ódio.

 

“desgraçado!”

 

Anne chutou o estômago de Dois Meia e deu uma joelhada no seu pescoço. Enquanto caía, a jovem, com a ponta de sua faca, tentou atravessar a testa de nosso protagonista aturdido! Ela sentia um turbilhão de ódio em seu peito, misturado mais ainda com desprezo próprio e impotência perante o movimento de Dois Meia.

 

“pare Anne” Disse Um, que saía do brilho intenso das luzes recém-acesas; “veja a luz, ela diz para parar … você continuou por um ódio bobo, insensato. Você não pode crescer enquanto mantém esse temperamento: aceite a derrota para não se destruir; aceite a derrota para voltar mais forte!”

 

Dois Meia, que estava deitado se contorcendo para respirar, olhou para cima, com ódio, em direção a Anne, que estava montada em ti, e a Um. Ele não entendeu o motivo de ter sido atacado, porém pensava:

 

‘que infernos essas duas querem comigo!’

 

“e você, jovem 162 …” Um se voltou para Dois Meia enquanto Anne saía de cima; “porque parou de se defender? Você desviou do primeiro golpe, porém, quando as luzes foram ligadas, você apanhou!” Os olhos de Dois Meia pareciam querer pulverizá-la; “oh, não me olhe assim! Foi você quem parou de lutar, não eu! O que queria que fizesse, lutasse por você? Se fosse assim, a única a ficar forte seria eu, e não você!”

 

Um golpeou o pescoço de Dois Meia com dois dedos. O local atingido vibrou, parecendo que todos os músculos da região tivessem se tornado apenas água.

 

“você está aqui para ficar mais forte!” Terminou, por fim, Um, ajudando Dois Meia, que já respirava melhor e não sentia nenhuma dor, a se levantar; “busque a força, e terá bem mais do que eu te darei no fim!”

 

Dois Meia tocou a região do pescoço tentando pensar um pouco sobre tudo, porém Um continuou falando, desconcentrando-o totalmente.

 

“agora me siga: iniciaremos o seu primeiro treino físico, meu jovem!”

 

Nosso protagonista olhou, um pouco cético para Um, porém ele decidiu seguir. Independente do que acontecesse dali para frente, de alguma forma, seria decisão dele, logo, valeria toda a pena se arriscar!