A Voz da Névoa: Capítulo 7

Parte 9 – prelúdio para o início!

 

“nosso último encontro foi extremamente breve, eu sei, não deu para nós trocarmos muitas palavras.” Acordando, de repente, num mundo colorido, flutuante, Dois Meia se viu em frente a um velho sem barba, porém, ainda com os seus cabelos grisalhos; “vou te explicar muitas coisas aqui, por isso preciso da sua atenção!”

 

O garoto olhou para todo o cenário, buscando algo, esperando uma revelação.

 

“fale …”

 

Dois Meia disse, um pouco irritado, por suas próprias palavras.

 

“como? Escutei direito? Parece que você não é mais tão cético quanto a minha existência agora, não é?”

 

O velho, no entanto, apenas sorriu perante a fútil demonstração do jovem contra ele.

 

“apenas fale …”

 

“tudo bem, tudo bem. Vejo que ser arrastado por essa reviravolta de eventos é um pouco irritante, eu sei, por isso vou me dirigir ao principal: quem sou eu?”

 

“…”

 

“eu sou o criador de uma arte marcial bem peculiar, obrigado por perguntar, uma arte marcial bastante perigosa e odiada nesse mundo orgulhoso. Tente adivinhar o porquê?”

 

“o porquê do que?”

 

“o por quê dela ser peculiar, perigosa e odiada?”

 

“não sei … por ser … hum … não sei!”

 

“não quer ser visto como um idiota por dar a resposta errada?” As bochechas de Dois Meia coraram; “okay … meu estilo era único por ser de todos e o meu estilo era perigoso pois poucos o buscavam! Consegue entender?”

 

“não …”

 

“bem, vou te explicar … veja: um estilo em que todos poderiam praticar e absorver era o que eu criei, porém ele não era algo que muitos poderiam ter, ou sequer fazer. Consegue me entender?”

 

“não!”

 

“você é um imbecil. O meu estilo era como um sonho: todos poderiam ter um e cultivá-lo, porém poucos poderiam torná-lo real.”

 

Por um segundo, a mente de Dois Meia se dissipou em uma contemplação ligeira, todavia, em seguida, todo o seu ser desdenhou outra vez do velho. Essa era uma antípoda que nem ele mesmo entendia.

 

“então todos te odiaram quando viram os seus sonhos irrealizados?”

 

O velho sorriu.

 

“quase isso: todos me odiaram quando viram morrer, devagar, as suas esperanças de se tornarem algo além deles mesmos!”

 

Os olhos do nosso protagonista se arregalaram.

 

“as pessoas não se veem culpadas quando o mundo desmorona, elas apenas se sentem culpadas quando não há mais ninguém a se culpar.”

 

[boom]

 

O mundo idílico começou a desmoronar.

 

“nós não tivemos muito tempo, entendo. Bem, aceite tudo que essa mulher disser, você está prestes a se tornar a primeira pessoa antes de renascer!”

 

Dois Meia sentiu uma enorme tristeza no peito.

 

“não se preocupe! Não importa o quanto você é fraco, enquanto desejar ser forte, todas as portas estarão sempre abertas! Agora adeus, não durma tão cedo, recomponha-se, viva!”

 

O mundo, por fim, se quebrou até o breu total e o velho, apenas voou para lugar nenhum como poeira dourada …

 

Parte 10 – O início!

 

Outra vez Dois Meia acordou, porém dessa vez ele se encontrava numa confortável cama, com lençóis de seda e colchão macio como um pão de queijo. Ele estranhou: suas almofadas quentes poderiam esconder uma navalha e ele já se preparava, com o peito, para receber qualquer coisa que o fosse infligir.

 

“olá …”

 

Da porta do belo quarto escuro, uma moça entrou segurando uma bandeja que fumegava. Ela continha um sorriso estranho, indescritível, no rosto, parecendo que havia ali um misto de felicidade e curiosidade.

 

“quem é você? Me matará?”

 

A garota, com o seu cabelo castanho claro que escondia um dos seus olhos com uma longa franja, continuou andando com um sorriso no rosto.

 

Dois Meia não compreendeu enquanto se arrastava na cama com medo da curiosa figura que se aproximava. Seu coração, apertado, já sofrera demais com os ataques repentinos das belas moças que apareciam em sua triste vida.

 

“oh … entendo. É normal sentir medo quando tudo parece abandonado!” A garota se sentou ao lado de Dois Meia e colocou a bandeja de lado, enquanto pegava, ternamente, nas mãos trêmulas de Dois Meia; “porém, antes de tudo, deixe-me explicar algo, para você não entender errado a minha mestra: nós salvamos sua vida. Seu corpo estava cheio de radicais livres e um tumor já nascia em seu pulmão, você sentiria os sintomas em menos de uma semana!”

 

Seus olhos verdes brilhavam intensamente e o rosto de nosso protagonista corou. Porém, após pensar um pouco em tudo que a menina disse, Dois Meia arregalou os seus olhos.

 

“espera?”

 

“eu sei, parece demais” A garota respondeu com um sorriso; “porém eu falo isso com convicção: aquele golpe, de minha senhora, que o desmaiou, estava repleto de uma estranha magia! Essa magia salvou sua vida!”

 

Nosso protagonista se perdeu no delírio da garota, já que ele não sabia, ao certo, suas palavras, porém era um absurdo. Ele morreria? Então como alguém o salvou de tal destino? Toda a frase da garota em sua frente era uma grande balela traduzida as boas línguas que o mantinham completamente cético quanto a tudo.

 

“pare com isso!” Uma mulher adentrou o quarto vestindo uma roupa exótica, bem parecido com um quimono japonês; “ele não entenderá a verdade a menos que a verdade seja dele também.”

 

O rosto da menina corou, Dois Meia não entendeu.

 

“faça um chá para mim. Deixe-me a sós com o nosso mais novo membro!”

 

“sim senhora!”

 

A menina saiu do quarto, com o passo apressado. Enquanto isso, Dois Meia olhava atentamente para a mulher que se apresentava: ela era a mesma que o havia golpeado.

 

“bela bandeja, essa menina é muito atenta.” A mulher, com os seus dedos furtivos, tocava nos lençóis com alguma sagacidade discreta, onde buscava algo incerto; “o nome dela era 137.248.569, agora se chama Anne. Eu escolhi esse nome pois combina com ela … acho que você não vai entender, não tem referências para tal, mas acho que vou explicar: Anne Frank foi …”

 

De volta o quarto, Anne reapareceu, tímida.

 

“Senhora, desculpe, porém não me disse qual chá?”

 

A dama olhou de um modo passivo, neutro, sem mostrar quaisquer sentimentos.

 

“fica ao seu critério!”

 

Anne, perto da porta, abaixou a cabeça e sumiu outra vez no corredor.

 

Nosso protagonista, atônito, fitava a bela dama em sua frente.

 

“Continuando minha história: Anne Frank foi uma menininha judia que morava na holanda (uma antiga nação antes da grande queda*) durante a segunda guerra mundial. Ela passou três anos de sua vida dentro de um anexo, com medo, enquanto dividia sentimentos com os outros moradores daquela triste moradia.”

 

Dois Meia entendeu necas.

 

Sua cabeça foi levado por aquela torreta de palavras sem significado.

 

“ela morreu, jovem Dois Meia, morreu de tifo num campo de concentração, junto com o seu medo e todos os outros sentimentos. Por mais que ela tenha sido uma heroína e testemunha dos malefícios nazistas, não se pode vê-la em algo além de uma vítima. Ela foi esquecida, óbvio, no nosso novo mundo a história morreu, porém ela é um bom exemplo de fraqueza, uma fraqueza que embuti no nome de minha discípula para ela nunca se esquecer das malezas do ser fraco.”

 

Dois Meia olhou para a moça e a moça olhou de volta. No coração de Dois Meia, cada palavra foi sentida como uma facada.

 

“bem …” A dama sorriu, mostrando uma estranha face acolhedora bem distinta a toda aquela inexpressão que Dois Meia já vinha se acostumando; “com esse rosto de desentendido, vejo que palavras confusas não são mais necessárias. Coma, mais tarde alguém virá aqui para te instruir.”

 

 

A moça acariciou a bochecha de Dois Meia com a palma da mão e andou em direção a porta, porém, antes de sair de todo, a moça parou e olhou outra vez para o nosso protagonista.

 

“aliás” Ela disse num tom de voz sereno; “meu nome é Um, por favor, não se esqueça*”

 

“uh … okay!”

 

A dama então saiu, esbeltamente, em direção aos feixes de luz oblíquos que invadiam o quarto.

 

‘eu não entendo.’

 

Dois Meia abaixou os seus olhos, sem entender, sem falar, ele apenas olhou para os lençóis de seda e para a fumaça que invadia suas narinas.

 

‘será que é certo?’ Dois Meia pensou; ‘será que é mesmo certo eu está aqui? Minha vida deu um largo salto e eu preciso aceitar, porém, uma parte ainda sensata de mim mesmo sente que estou escalando um castelo de areia … se ele desmoronar … morrerei?’

 

Em meio aos seus ponderamentos, o estômago roncou e Dois Meia, percebendo a situação crítica da sua fome, roubou um prato com o que parecia ser uma sopa misteriosa, com coisas das quais ele nunca viu na vida boiando alegremente pela  superfície daquele ‘lago culinário’.

 

Dois Meia pegou uma colher de pau, que estava na bandeja, e tomou um gole da sopa: sua alma paralisou e o seu ser contemplou, exclusivamente, aquilo que suas papilas gustativas tatearam com tal afinco e prazer.

 

Nosso protagonista comeu tudo que havia na bandeja, sem exceção. Essa era a monstruosidade da fome de dois dias que 162 havia cultivado sem sequer perceber.