A Voz da Névoa: Capítulo 6

Parte 8 – O novo jovem!

 

Com a cabeça latejando de dor, Dois Meia acordou, amarrado, dentro de uma estranha sala que mais parecia ser um dojo.

 

‘onde estou?’

 

Seu corpo estava de bruços ao chão, com suas bochechas encostadas na madeira lustrada e fria da sala. Ele apenas via uma estante de livros ao longe em sua visão limitada.

 

“olá, menino!”

 

Em sua frente, vestida com um belo vestido vermelho, uma moça, bem bonita para ser exato, sentou no chão, de pernas cruzadas, bebendo numa xícara fumegante o que parecia ser chá, tapando a vista da estante de livros atrás.

 

Seus olhos, cor de âmbar, encaravam, penetrantemente, Dois Meia, e o seu cabelo negro esvoaçante destacava os lábios rosas que bebiam, pacientemente, da xícara.

 

“você quase morreu” Disse a bela dama; “aquela moça que te trouxe queria te matar, porém eu pensei: ‘que segredo esse garoto guarda para ser tão especial assim?’. Decidi mantê-lo vivo, sabe, para saciar algumas questões.”

 

Nosso protagonista, amarrado, tentou olhar para o alto, porém, com os seus pulsos prensados contra a sua virilha, Dois Meia mal conseguiu se mexer. Ele apenas se arrastou futilmente pelo chão, como uma larva.

 

“primeira pergunta: por que você está com a aura de Franker? Ela é bem fraca, parece que ele te passou recentemente. Qual o motivo para tal, por que ele te faria de herdeiro?”

 

“…”

 

“você não responderá? Okay! Quero dizer, apenas sua vida está em jogo … nada  mais!”

 

“…”

 

“ainda não quer responder? Tudo bem …”

 

Após proferir a frase, moça colocou a xícara num prato e se levantou, lentamente. Indo em direção a Dois Meia, a dama lançou seus braços esguios e pegou-o pelo colarinho, suspendendo-o no ar.

 

Encarando-o com certa repulsa, a moça disse, sussurrante, num tom ameaçador:

 

“você tem dois minutos para me dizer o que houve, compreende?”

 

Dois Meia tremeu enquanto encarava, apavorado, a bela moça, que com um rosto severo, quase vomitava em cima do repugnante ser fraco que ela suspendia.

 

“agora você tem um minuto e meio! Acho melhor falar, você tem bem menos a perder com isso!”

 

Dois Meia percebeu a postura da dama – ele havia se acostumado com esses olhares –  e, com os seus lábios trêmulos, se pôs a falar com dificuldades.

 

“eu o encontrei … encontrei … num beco … um velho …”

 

“velho?”

 

“um homem velho de cabelos grisalhos … ele tinha uma ferida no peito … sangrava demais. Eu troquei três palavras com ele antes do mesmo morrer, eu saí do local logo depois dele fechar os seus olhos!”

 

“essa é a sua história? Você tem mais trinta segundos para me convencer!”

 

Dois Meia olhou para o seu pulso.

 

“esse homem velho pegou em meu pulso … por um momento. Brilhou numa cor dourada e eu não sei … um sentimento estranho percorreu o meu corpo, eu acho. O velho desde então aparece em todos os meus sonhos …”

 

A moça ficou surpresa, sua boca abriu, seus olhos se arregalaram. Ela entendia, talvez, um pouco de suas palavras, por mais que fossem um tanto cruas.

 

“então é isso, bem …”

 

A moça se aproximou de Dois Meia e, com um estranho movimento, cortou as cordas que limitavam o seu corpo.

 

Nosso protagonista se levantou, sentindo-se aliviado e olhou para a moça com alguma paranoia. A dama, no entanto estava imóvel, olhando ao solo, refletindo pavorosamente.

 

“pergunta: agora que você não está mais amarrado … o que fará?”

 

“como?”

 

“você agora tem o poder de escolher o que deseja e eu me pergunto o que você fará? Será que o senhor vai voltar a sua antiga vida diária, ou será que o senhor busca algo a mais?”

 

O rosto da dama estava inexpressivo, não parecia que ela realmente se importava com  a resposta, porém Dois Meia, sem entender necas de necas, sentiu que devia falar tudo de uma vez só.

 

“eu desejo a força … nada mais!”

 

A dama sorriu carinhosamente destruindo os sentidos de Dois Meia, pois a beleza inspirava algo e a lógica defensiva de nosso protagonista, outra. Ele ficou com medo repentinamente.

 

“vejo que é isso … bom, já que é assim, vou te fazer uma proposta: você quer que eu te dê poder? Em troca, apenas te quero!”

 

‘Como?’

 

Na confusão mental de Dois Meia, aquilo não se era esperado. O que ele poderia dar para ela? Ou pelo menos: o que ela desejava dele? Quem ele era e será que ele era  tão importante assim?

 

Dois Meia caiu em diversos cálculos complexos, porém não chegou a lugar nenhum.

 

“qual a sua resposta, jovem?”

 

“eu aceito!”

 

Dois Meia, sem entender, respondeu. Ele não soube o motivo, porém respondeu e isso o deixou, por um segundo, abismado. Mas no fundo, talvez, ele apenas sabia que a resposta era a única linha que dividiria todo o seu futuro dali em diante.

 

“ótimo!” A dama bateu palmas alegremente; “eu gosto quando as coisas são rápidas!”

 

A moça levantou o dedo indicador apontando para os céus.

 

“agora você será aquilo que eu criarei e nada mais!”

 

Num movimento rápido, ela golpeou, com o seu dedo, a boca do estômago de nosso protagonista, que, com o impacto maciço do golpe, teve seu rosto distorcido para a pura dor!

 

‘Isso’ O tempo por um minuto parou na consciência em choque de Dois Meia; ‘o que ela fez?’ E se retomou, apenas, quando um estalo em alto som gritou e uma explosão de ar surgiu, fazendo com que os cabelos e as poeiras voassem num turbilhão e se desajustassem da harmonia silenciosa da sala.

 

“você será a prova que eu preciso, apenas!”

 

A dama tinha um rosto neutro, com apenas um sorriso, o que para Dois Meia era terrivelmente assustador.

 

[argh!]

 

Dois Meia viajou a sala toda colidiu com a parede e sua consciência padeceu.

 

Sem saber o que acontecera, nosso protagonista outra vez se viu num idílico mundo de sonhos.