A Voz da Névoa: Capítulo 4

Parte 6 – A força!

Dois Meia se viu outra vez no mundo dos sonhos e, depressivo e cansado, se deitou no campo de rosas.

O velho, sorridente, apareceu em sua frente, com uma aura anciã que irritou Dois Meia profundamente.

“olá outra vez seu covarde, eu disse para você não adormecer cedo demais!”

Dois Meia estava se sentindo confuso enquanto olhava para o céu, ele foi atacado de repente, sem nenhum motivo aparente.

“eu não fui assaltado” Ele começou a ponderar em voz alta em meio ao campo de flores surreais; “ela me atacou por que motivo?”

“porque você é um covarde! Olhar para você causa ódio, não me engano em pensar que alguém te destruiria … quero dizer, nessa realidade de merda, uma pessoa que não luta é bem nociva aos olhos de todos os outros.”

Dois Meia se zangou!

“fica quieto, você é apenas uma voz na minha cabeça! Não representa nada!”

O velho chegou perto do jovem, e o tocou na testa.

Dois Meia sentiu uma terrível sensação de alívio. Ele não conseguiu entender.

“você é uma boa pessoa que não quer se converter ao horrível mundo que se apresenta, não há nada de mal nisso … pelo menos não quando você é forte o suficiente para não se deixar dançar a dança do mundo.”

Dois Meia se ergueu e olhou para o velho, curiosamente.

“e o que é ser forte?”

O velho riu!

“hahahahaha! Esse é o espírito!”

“tá … mas o que é ser forte?”

“ser forte?” O velho ponderou; “Antes de tudo, força é tudo aquilo que te permite agir sobre um corpo. Um homem armado poderá pôr medo naqueles desarmados, um homem com um exército sobre aqueles sem nada.”

O garoto suspirou.

“força se resume ao mal então.”

Franker olhou de um lado, olhou para o outro, pensou por um momento e, por fim, começou a rir.

“hahahaha! Você é um imbecil? Bem e mal são polos relativos!”

“duvido!”

“hahahaha! Tudo bem, então eu vou te fazer uma pergunta: um homem encontra, num sertão, um poço com água o suficiente para sustentar três pessoas por três meses, porém, na sua pequena sociedade, há nove pessoas sendo duas delas grandes guerreiros, outras duas agricultores experientes e as outras quatro simples pessoas ordinárias. Você pode sustentar até cinco pessoas, contando contigo, por um mês, porém não há comida, e você teria que matar 4 pessoas para não deixar o grupo morrer de fome, lembrando que a chuva só cairá daqui a dois meses. O que você faz?”

O garoto olhou feio para o velho.

“… o que isso tem a ver com força?”

O velho esboçou um sorriso.

“isso tem muita coisa a ver, pois essa pergunta é um paradoxo moral complexo.”

“E é com isso que você deseja provar a sua relatividade do bem e mal?”

“sim, pois sua força de decisão pode salvar de um a cinco pessoas facilmente, sendo que sua decisão te tornará ou um anjo, ou um demônio, ou os dois. Pense, se você salvar apenas três, haverá fartura de carne e água, se salvar cinco, poderá haver falta de água, se você tentar salvar os nove, ninguém sobreviverá.”

“e qual a importância dessa classificação que você fez?”

“nenhuma, mas não se foque nisso, pense no paradoxo!”

“eu salvaria os nove e morreria!”

“então todos morreriam e você seria apenas um covarde fraco no fim das contas!”

“como?”

“a água acabou e era tarde demais para correr atrás, todos morreram!”

“então para mim ser um salvador …”

“você teria que tomar uma decisão e controlá-los. Você seria um anjo, faria o bem, ao mesmo tempo que seria um demônio, e faria o mal!”

“no fim das contas, o fim justifica os meios?”

“isso é um clichê, porém é o conceito: não há bem ou mal, apenas vencedores. Aqueles que vencem é que dizem se há bem ou mal, os perdedores apenas se lamentarão e perderão.”

“isso é deprimente!”

“é a verdade, aceite-a!”

“então eu quero mudar essa verdade!”

Dois Meia finalmente gritou e o velho, por fim, riu

“Haha! você precisa de força para isso!”

“e como eu consigo força?”

“força é um processo, não um objeto que se acha na rua!”

Dois Meia olhou para as paredes do seu mundo de ideias.

“quais os passos então!”

“primeiro: você precisa querê-la; segundo: precisa ter coragem para buscá-la!”

“explica …”

“o caminho para a força é como se jogar para um abismo, e mesmo dizendo que lá tem todo o ouro do mundo, muitos se resguardam.”

“então eu só preciso cair de cabeça?”

“apenas!”

Dois Meia se sentou de cócoras, um pouco chateado e angustiado.

“e como eu alcanço essa coragem?”

“você? Não, você é um covarde, nunca vai alcançar!”

Dois Meia se levantou rapidamente e pegou o velho no seu manto, porém a mesma sensação de alívio, que ele sentiu minutos, antes retomou.

Sem entender o sentimento, Dois Meia se pôs a chorar no peito do velho morto.

“entenda, não chore: para um fraco se tornar forte, ele precisa morrer para renascer em algo totalmente novo!”

“e o que eu faço?”

“quando você acordar, se torne aquilo que você deseja ser. Apenas assim você renascerá em algo que você nunca foi.”

O mundo de sonhos então começou a se despedaçar e o velho a se tornar poeira dourada no espaço que se destruía …

“coragem, no fim, é apenas um processo, de todas as formas … “

Desaparecendo da frente daquele que chorava, assim.