A Voz da Névoa: Capítulo 2

Parte 3 – O fraco!

 

Dentro do orfanato em que vivia, Dois Meia não era o mais forte, não era o mais bonito e nem o que tinha mais amigos. Na verdade, todos os amigos que Dois Meia um dia considerou na sua vida jaziam bem longe, tendo nada mais do que apenas memórias nostálgicas dessas poucas pessoas especiais.

Dois Meia era um simples jovem de 14 anos. Ele ia para a escola e trabalhava meio expediente numa fábrica de pilhas, coisas normais que garotos da sua idade fazem.

Mas dentro do orfanato em que vivia, Dois Meia não era ninguém.

Por isso, naquela manhã ainda, um grupo de jovens – uma gangue para ser mais exato – encurralou Dois Meia no beco onde ele guardava a sua bicicleta e começou a provocá-lo da maneira mais madura possível.

“ei seu bosta” Disse o Líder do grupo, menino 164.835.729 apelidado de Heichi; “fiquei sabendo que você comprou uma bicicleta nova, será que é essa daí?”

“…”

“vai responder não? O que há? Está com medo!”

Dois Meia era fraco e consciente disso. Ele queria ser forte, porém ele nunca teve tempo para tal. Ou talvez essa fosse apenas uma desculpa íntima que ele se contava para não ter que lidar com os seus problemas tão cedo.

“ uh … é …”

Sua impotência também o deixava imensamente irritado.

“o que foi? Fala seu merda? Ou será que apenas está gemendo como uma menininha? Te dou tesão? É isso? Você gosta de mim? Hahahahahaha! Ei vocês, olhem essa menininha aqui gemendo!”

Os subordinados riram, talvez por medo, talvez por desgosto, de todas as formas, riram enquanto Dois Meia se encolhia no seu canto, com medo, por mais que nada realmente estivesse acontecendo.

Heichi percebeu a fuga de nosso protagonista, fazendo-o sentir um asco, que o irritou profundamente a ponto de, sem mais, nem menos, parar de rir e, ameaçadoramente, encurralar Dois Meia, face por face, contra a parede do beco.

Seus lábios, bem próximo do ouvido de Dois Meia, sussurrou, num som baixo, mas perfurante, três palavras com um sentido forte o suficiente para fazer com que toda a estrutura do nosso fraco protagonista se rendesse a opressão da gangue.

“você me enoja!”

Dois Meia sentia a mesma coisa por si: um nojo infinito por ser um ninguém. Um lixo impotente que não consegue lutar por nada em sua vida.

Sua alma estava quebrada por dentro.

“acabem com ele” Heichi disse, virando suas costas para o jovem Dois Meia e, por fim, andando em direção ao fim do beco, onde a luz embaçada dum sol coberto de névoa caía em filetes cegantes.

Ainda no beco: Dois Meia foi atacado, surrado e destruído.

Porém, seu corpo, templo de sua mente, estava intocado da dor, existindo em seu peito, uma única ferida, que talvez fosse no lugar mais sensível de sua alma.

O único ferimento jazia em seu orgulho.

Parte 4 – O covarde!

 

Com a sua alma destruída – e roupa terrivelmente suja –, Dois Meia foi para a escola.

Seu bairro, uma grande favela esquecida pelo mundo, recheava o jovem com as mesmas imagens podres de muros cinzas, becos escuros e pequenas lojas vazias que exalavam uma estranha fumaça que se misturava com a névoa densa que sempre cobria as ruas tristes de sua casa.

Homens sem rumo, mulheres da vida, pessoas ambiciosas, as esquinas continham suas histórias, e talvez fosse essa a única beleza que inspirava as manhãs de nosso pobre protagonista.

‘e lá vamos nós!’

Dois Meia viu os muros pichados, o portão principal enferrujado, o jardim selvagem, os corredores sujos e empoeirados.

Sua escola era como seu bairro: esquecido e acabado, a diferença é que a beleza selvagem que aqui jazia não o inspirava beleza, apenas medo.

Ele se dirigiu depressa para a sua classe, após estacionar sua bicicleta na entrada e entrar devidamente na escola junto com a multidão que se apresentava.

‘será que terá aula hoje?’

Nosso protagonista dobrou o corredor em direção a sua classe, entrou sorrateiramente evitando olhares e visou sua carteira típica, cheia de rabiscos de poemas que ele escrevia quando algum professor faltava.

Esses rabiscos, podendo ser ditos até aleatórios, apetecia os gostos de 162, tornando esse estranho lugar num refúgio para sua alma partida.

Ele se sentou, a aula passou, o intervalo chegou, porém ele se manteve em classe.

Os intervalos eram violentos, pois as diversas gangues da escola sempre desciam em luta para tentarem conquistar a supremacia do colégio e Dois Meia não desejava bem isso.

Ele era um covarde, logo, poder parecia ser bem sem sentido.

‘porque eles brigam’ Ele se perguntava enquanto descansava a cabeça em sua carteira; ‘será que não existe, por acaso, uma forma de resolver essas coisas sem brigas? Será que o mundo está fadado a violência?’

Os desvaneio de um menino fraco comendo sozinho durante o intervalo. Sem nenhuma diversão, ele se contentava em observar a pequena garota solitária sentada na carteira da frente.

Essa garota, de nome 465.723.981, era bonita, com grandes olhos verdes e um esvoaçante cabelo dourado.

Dois Meia, com sua vida patética, se perguntava: ‘porque ela está sempre só?’

[Pah!]

A porta da sala foi chutada, um garoto baixo de rosto triangular e cabelos espetados entrou junto com uma trupe de meliantes.

Dois Meia, que comia sozinho, se surpreendeu, não havia praticamente ninguém na sala a não ser ele, a garota da carteira da frente e alguns meninos jogando damas ao lado. O que aqueles meliantes desejavam ali?

Essa pergunta ecoou em sua cabeça cansada e a covardia se apossou do seu corpo enquanto observava a trupe passar pelo corredor de cadeiras.

Seu corpo tremeu, suor frio desceu pela sua espinha enquanto aqueles corpos ultrapassavam o seu, indo em direção a um garoto, em meio aqueles que jogavam damas.

O menino de cabelo espetado estava atrás de 135.274.189, apelidado de Oito Nove, por algum motivo particular, abordando-o com um grito caluniador.

“Oito Nove maldito! Sua mãe, aquela prostituta, enfiou uma faca no meu pai ontem! O que você vai fazer sobre isso?”

Os meninos que jogavam damas continuaram jogando, a menina da carteira da frente continuou comendo e Dois Meia estava se tremendo em sua carteira.

“o que eu tenho a ver com isso? Seu pai é um vagabundo que queria dá um calote na velha, sorte dele ter saído com vida!”

Os meninos que estavam jogando damas gritaram ‘wow’, a menina da carteira da frente riu e o nosso protagonista continuou se tremendo na sua carteira.

O garoto do cabelo espetado bufou de ódio.

“você vai ver seu pedaço de merda, vamos resolver lá fora!”

“se a putinha quiser, não nego!”

“hahaha, para com isso Oito Nove, não basta o bosta do pai dele surrá-lo diariamente, você ainda quer batê-lo mais um pouco?”

Nove Meia não se preocupou muito com o que seu amigo falou.

“apanhar não é o problema, meu amigo, é a solução!”

Nove Meia sorriu vulgarmente, o menino de cabelo espetado deu um olhar feio e os dois se dirigiram para fora da sala.

Nosso protagonista no entanto, continuava se tremendo de medo no seu canto!