A voz da Névoa – Capítulo 16

Parte 19 – O doloroso molde para o corpo [fragmento 7]!

Num enorme quarto, Um meditava, na clássica posição de lótus, respirando pesadamente sobre o piso de madeira lustrada, enquanto um pequeno dispositivo holográfico, que mostrava uma cena estática, revelava um pedaço de madeira fincado ao chão sendo surrado por um menino de membros ensanguentados e olhar mais do que maníaco.

Poderia não parecer, mas ela observava cada detalhe, cada ferimento, cada respiração. E tudo isso fazia ela sorrir, de uma forma bem oculta, por trás de seus lábios rosas, e dos olhos fechados, que escondiam o âmbar por trás das pálpebras.

doce Jean, o que esconde? – ela disse para si em pensamento, enquanto sentia a vibração dos sentimentos que aquele exalava numa sala tão distante; – será que de todos esses ferimentos realmente há o desejo de fazer algo diferente? Mas isso é impossível, você deveria saber? Então, o que guarda nessa cabeça? Espero que não demore muito, pois realmente minha ansiedade está me pegando desprevenida.

Um era calma, ela não se importava muito com as mudanças, sempre seguindo o fluxo invisível das coisas. Porém, Jean a impressionava, de uma forma inconstante, alternando entre a decepção e o alívio.

Ela não entendia bem, porém sorria com isso. Sua caixinha de surpresas talvez fosse a coisa menos monótona que ela viu em todas décadas já vividas, e isso não a importunava.

Desde o dia que aquela discípula, a tão rebelde discípula, havia o trago ela já imaginava que algo do tipo ocorreria, não nessa intensidade tão antípoda que oscilava, mas, ainda assim, algo do tipo.

mas acho que … – ela imaginava, enquanto sentia um alegre toque no peito; – para Franker fazer o que fez, realmente, deve haver algo por trás; algo inimaginável, que mudará tudo … uma outra vez …

Dos hologramas que flutuavam, uma cena se desenrolava, porém não era algo que fazia Um abrir os seus olhos, por mais curiosa que fosse: a imagem era Jean, socando como se soca normalmente, mas que, por algum motivo, sendo ainda um pouco bizarro, tendo o seu braço girando, como uma pseudo-broca, e os seus pés se torcendo, assim como o corpo, parecendo ser feito de borracha.

Um apenas viu, enquanto já imaginava a cena terminando de se desenrolar: um braço quebrando, Jean caindo, a dor e os gritos que normalmente se escutam. Coisas que aconteceria a um amador caso tentasse coisas que não são para amadores.

Porém, surpreendendo Um, que, ainda de olhos fechados, observava os frames, segundo por segundo, onde Jean, com todo o corpo torcido para o golpe, parava, de repente, fazendo o ar ao redor explodir, criando uma turbulência em frente a madeira fincada, que sequer se mexia, ou mesmo transpirava.

Um abriu os olhos, vendo o semblante de Jean, tentando imaginar por qual motivo ele não havia tentado usar aquele soco contra a madeira, mesmo tendo certeza que aquele seria o seu soco mais forte.

aquele é um golpe pouco prático – Um pensou; – mas chegar tão perto da perfeição usando apenas a intuição? Será que ele se encontrou com Franker, furtivamente, naquela cabecinha? Acho que não, venho dando doses pesadas de Spl-ult, ele não deveria ser capaz de se conectar com Franker, pelo menos não enquanto eu venho moldando o ponto zero de seu cérebro …

Um então chamou Zero, através de um dispositivo de chamada, acoplado no aparelho de hologramas no chão. Esta mesma, apareceu em exatos 60 segundos, disposta, desperta, mas sem aparentar realmente está, com todo um ar mecânico, que os bons escravos normalmente tem.

Zero, querida Zero, me faça um favor – Um disse com um sorriso; – dê o que comer ao nosso pequeno lutador! Ele parece está com bastante fome.

sim minha senhora, porém devo lembrar que a dose de Spl pode ser um pouco demais, comparando os intervalos de doses …

não se preocupe, apenas dê!

Um desmanchava seu sorriso enquanto Zero voltava suas costas para a porta, levando toda a sua eternidade.

Voltando os olhos aos hologramas ela via uma cena que a fez tremer se desenrolar: Jean sentando e meditando, como se meditam os velhos monges do mundo antigo.

pequeno, pequenino … o que você pretende?

Um se levantou, nervosa com a inércia de Jean, e então apertou um botão, de um controle errante que se encontrava pelo chão, abrindo diversas portas, que levavam a anexos, onde móveis automatizados entravam, mobiliando o ambiente com suas presenças.

eu preciso de um cigarro … isso … ele não pode fazer isso, não dessa forma … se ele conseguir … onde fica minha face? De tudo que eu fiz … não, de tudo que eu farei … essa será a primeira vez que eu posso vir a ver tal acontecimento!

Um pegou uma cadeira, em frente mesa de escritório solitária que adentrou na sala, e retirou um antigo cigarro malboro vermelho, bem clássico, de antes da queda, e o acendeu, com um isqueiro todo preto, grafado: Carpe Diem.

A fumaça subiu alto por aquele quarto e as imagens que percorriam pela tela holográfica se distorciam. Um se conteve com a vista enquanto tudo voltava ao normal: Zero já colocava o prato em cima de uma pedra enquanto retirava outro.

No entanto Jean não corria para o mesmo, com toda a vontade vista ao longo dos meses que desdobrados, causando uma certa curiosidade: o ser ainda meditava, com seus olhinhos fechados, todo concentrado em sua boa vida e nos ferimentos que não se fechavam.

Um reparou nos batimentos cardíacos, na respiração, em tudo, chegando na seguinte conclusão:

então você dormiu, meu pequeno …

Um, outra vez, pediu os cuidados de Zero para Jean, forçando-a a pôr toda a comida na boca de um protagonista adormecido, como uma mãe faz ao seu filho, por mais que no fim o claro Jean fosse um órfão chorão.

e agora, veremos: o que fará quando acordar? Minha pequena incógnita doentia!

Naquela noite, Um acompanhou todas as respirações do dorminhoco, até que …

Parte 20 – O doloroso Molde para o corpo [Fragmento 8]!

Entrando num enorme quarto, com luzes que a iluminavam tão intensamente, como num dia claro, fazendo os pisos de madeira lustrados se destacarem, junto com as fontes zen (cuja as pedras cinzas deixavam cair suas águas uma por cima das outras, de modo sucessivo) metricamente colocadas lado a lado, perto de uma mesma parede, assim como os vasos detalhados com bambu artificial, que abrigavam uma Yucca verde de plástico, refrescando o quarto com suas cores vivas, onde uma mesa de escritório se encontrava, com diversas telas holográficas azuis flutuando, de um lado para o outro, seguido por uma dama que acompanhava-os com os olhos.

Era nesse ambiente que Anne se encontrava com Zero, numa madrugada qualquer, onde as luzes apagadas dos corredores indicavam a grande necessidade de sono!

Anne, venha cá vê isso! – Um disse enquanto apontava para uma tela, em especifica, inerte onde estava; – veja como um homem luta e se surpreenda!

Anne olhou para a tela onde um espaço verde se via com Jean se banhando nas águas gélidas da lagoinha artificial, com peixes clonados devorando a morta pele de seu corpo, assim como o enegrecido sangue de suas mãos tão destroçadas.

você não acreditaria no que eu vi, porém vai ter que acreditar no que virá!

Anne estava atordoada com a imagem, mas não era pelo fato dela ser impressionante. Todo o entusiasmo de sua dama não parecia ser explicado pelo que se via, por isso ela tentou observar com cuidado.

Anne, veja bem, se acontecer o que eu acho que vai acontecer, o mundo mudará, em breve! Você verá.

As palavras de Zero, por mais confusas que fossem, ainda causavam algum ciúme. Ela nunca viu sua senhora de tal forma, toda eufórica, olhando para os quadros que se movimentavam. Na verdade, muitos poucos sentimentos já foram vistos naquele belo rosto, fazendo Anne repensar sobre toda a vida que ela havia passado, num breve minuto de desconcentração.

minha querida, não fique em pé aí. Peça uma cadeira e se sente ao meu lado. Vou te ensinar algumas coisas bem pertinentes sobre o mundo.

Anne apertou um botão, na parte lateral do aparelho de hologramas, tendo em seguida uma cadeira automatizada ao seu lado, servindo-a como assento, enquanto tinha as mãos agarradas por Zero, em seguida, que tremia de uma forma bem inapropriada para seus jeitos normais.

Anne, vou te contar um pouco sobre Franker Médsci, venha cá, nos meus braços … você está fria, bem fria, querida – Zero começou a acariciar os cabelos de Anne de forma matriarcal, enquanto apoiava seu queixo na cabeça dela; – Franker Médsci, minha jovem, foi, antes de tudo, o maior cientista de toda a história humana. Embora que o motivo para tal tenha sido sua vitalidade elevada, Franker foi muito importante para a história humana, principalmente por ter participado das três maiores revoluções científicas do séc XXII e XXIII, criando os fatores que nos leva a está aqui hoje. Eles são o espaço zero, as pilhas de plutônio e, principalmente, a condição esper.

Anne, que estava entre o calor dos braços da exaltada Zero, escutava cada palavra com bastante atenção. Sua mestra era uma pessoa ausente, decerto, que negligenciava bastante seus discípulos com os fatos necessários, pondo-os ao mundo sem nada além deles mesmo.

Anne, o espaço zero é um pequeno chip que é posto em alguns recém-nascidos, sendo na verdade exclusivo para um grupo bem seleto. Esse chip permite que os seres humanos controlem seus corpos livremente, da forma que deus nos impede, alterando e não alterando as diversas células de nossos corpos. Você tem isso, aquele menino na tela também o tem, o problema desse espaço é que, bem, não é fácil de controlá-lo, já que no fim a liberdade é algo que se conquista … infelizmente.

Anne observou a tela que projetava a cena com uma respiração bem pesada. Ela não sabia o que era o espaço zero, mas tinha alguma consciência de uma existência desse tipo, tornando-a a tocar em sua própria cabeça enquanto imaginava o mundo de cores do espaço.

o espaço zero, quando bem controlado, é capaz de fazer coisas irreais, como aumentar a vitalidade, aumentar a força física, atenuar a dor, e, em casos bem específicos, consegue nos libertar do plano físico, com algo chamado condição esper.

Anne segurou a respiração, enquanto a imagem tão monótona mudava, repentinamente, de um homem meditando em lugar nenhum, para um homem abrindo os seus olhos em meio a falsidade prática. Ela não entendia o porquê, mas à imagem tinha um impacto maçante, como se o clima calmo fosse invadido por uma tempestade.

eu sei como você se sente, querendo respostas para tantas perguntas que apenas caem em nossa frente. Pena que tenho poucas palavras para dizer, sendo apenas esta: um ser sempre muda quando descobre como mudar … ou melhor, um ser sempre muda quando descobre que pode mudar. Essa é uma regra da vida, no entanto, esse menino não parece querer segui-la.

Anne não entendeu, porém a cena mostrava algumas revelações fantásticas, que a fazia arregalar os seus olhos, junto com a pulsação que aumentava em suas veias e os batimentos que se desregulavam.

Vendo a imagem em sua frente, agarrada a Zero que tinha um enorme sorriso no rosto, Anne sentiu ciúmes, se viu impressionada, e ainda por cima teve um colapso de felicidades. Três sentimentos distintos numa mesma tigela, que reduziam a moça a um estado de ansiedade e nervoso enquanto o nosso protagonista atingia um novo ápice! Ápice este que não cabe descrever aqui …

Parte 21 – O doloroso molde para o corpo [Fragmento 9]!

Abrindo os olhos em cima de uma pedra, Jean sentiu suas mãos. Vendo-as rígidas, um pouco machucadas, mas extremamente moldadas, Jean tomou uma estranha emoção, da qual ele bem compreendia.

quanto tempo estou aqui? – Jean pensava; – acho que já tentei pensar sobre isso, sem resposta. Mas o que há? Não entendo ao certo; todas as luzes em cima de minha cabeça são constantes, o que me faz sentir como se não houvessem pausas entre as revelações que me sequestram.

A muito tempo, ele não poderia medir pelo que conhecia, Jean se encontrou com Franker Médsci num sonho e lá ele viu o que queria: um soco que destruiria o que quisesse, externamente, internamente. Porém para um todo sempre haveria complexidades; estas que nos impede de ter as coisas de imediato. Logo por tal, Jean precisou passar algum tempo (quanto tempo) desvendando algumas coisas práticas, certas coisas teóricas, além de rasgar o próprio corpo na escuridão da inexatidão. Quantas vezes ele não torceu o pulso? Não esfolou os dedos? Não deitou sangrando na grama sintética? Todavia, quando tudo passou, quando sua mão parava de doer, quando dos milhares de soco todo o seu ser já desvendava, o que poderia ser sentido além da felicidade? Decerto Jean batalhara até aquele ponto, embora que toda a batalha não parecesse levar a qualquer lugar, no entanto tudo aparentava já está no ponto de eclosão, fazendo-o pensar: “O que me restaria?”

Jean abria os olhos em cima de uma pedra, via seus punhos, via seu corpo e, ainda por cima, a alma. À alma desolada, espatifada a poucos segundos, que meditara, para chegar no exato momento onde todas as coisas mudariam.

quanto tempo estou aqui? – outra vez ele se perguntava; – acho que não faz sentido indagar essa questão, já que o tempo não importa após tudo já ter passado.

Jean se levantou da pedra, caminhou pelas águas e se encontrou outra vez com a madeira fincada ao solo. Olhando para o céu, reproduzido num enorme telão, ele sentiu as coisas plásticas e cancerígenas ao seu redor, mastigando em voz alta o próprio orgulho enquanto aproximava o seu punho direito da tora.

Estava apenas a alguns centímetros da tora o seu punho e o corpo se via absolutamente relaxado naquela posição ereta tão informal.

Como poderia alguma coisa surgir de lá? Pensava as câmeras que observavam-no, pensava os peixes que cochilavam dali.

No entanto, observe, torcendo seus pés ao solo, assim como impulsionando-os com os joelhos em dobra, ao mesmo tempo em que o seu ombro se movimentava num movimento de chicote, e o seu braço esquerdo levantava num giro, enquanto o punho direito se afastava silenciosamente, o punho, que chocava o pequeno relevo que existe por cima do dedo indicador, ia repleto de tantas energias, que em contato com a tora, misturava tudo numa pequena bolha que penetrava, até se dispersar completamente em divergências, tornando a tora a se esmagar, criando uma cicatriz em espiral, junto com a serragem e farpas que se espalhavam!

isso …

Mas hora, a tora não se partia em dois na visão daquele que via todo o seu braço se torcer, quebrando seu punho em tantos pedaços, ao mesmo tempo em que os tendões se embaralhavam e de certo modo abriam-se, de forma igual ao seu braço que se desencaixava, além do ombro, sendo apenas o seu espírito que partia, caindo com os joelhos dobrados, sem mais nenhuma energia, tendo apenas a dor, a eterna dor, do doloroso molde para o corpo que falhava.

isso …

E todos os seus fragmentos, do que adiantara? Ele pensava; Se caído sob o solo com o braço destruído, o nosso protagonista apenas via a feiura da vida.

outra vez – ele gritou naquele estado; – outra vez falho. Todo o trabalho nesse tempo passado não adiantaram de nenhum modo, tornando a última parte apenas em ódio e desprezo, enquanto minha vida outra vez se repetia na mesma trama clichê … em que eu morria.

Naquele cenário, móveis automatizados entravam junto de pessoas bem-vestidas com sorrisos no rosto, dizendo coisas inaudíveis, enquanto a visão turva de Jean iluminava as frases que se transmutavam em:

você conseguiu, parabéns!”

Não era compreensível, mas como a última coisa escutada, as palavras ecoavam terrivelmente, tornando a escuridão que jaz por trás das pálpebras num pesadelo que se conectava a um apelo irritante, que amordaçava a alma.

você conseguiu, parabéns!”

Mas o que Jean conseguiu no fim, além da dor que destruiu o próprio corpo? Certas perguntas não podiam ser respondidas dentro do sono, retomando apenas uma vaga lembrança, como um vaga-lume nas noites de lua nova, ou as estrelas pendidas em postes, que tendem a iluminar as ruas da cidade.

Pelo menos, no fim, a tora ao menos foi ferida, não deixando que a luta fosse tão unilateral aos olhos de fora, que aplaudiam com falsas palavras … não é mesmo Jean?

você conseguiu, parabéns!”

Mas o que será que isso significava, naquele caloroso momento perdido entre as entranhas do espaço e tempo?

Nota do autor:

A novel vai entrar por hiato durante algum tempo.