A voz da névoa – Capítulo 15

Parte 18 – O doloroso molde para o corpo [fragmento 6]!

Naquele dia, Anne voltou para o seu quarto com um ponto de interrogação sobre a cabeça. A frase que Jean havia dito perfurava o seu peito a cada frame daquela lembrança, tornando o seu corpo a cair, deprimido, em uma poltrona feita com tecido decorê rosa, em frente a um enorme quadro, em p&b, de Malcon x e a uma mesinha de estudos, cujo, na sua superfície, bonequinhos de madeira sintética se viam.

Ela os olhou e então, num surto melancólico, os quebrou, como normalmente se quebra um lápis!

se eu não destruir essa tora com as minhas próprias mãos … – ela parafraseava, em sua mente; – perderei uma das coisas mais importantes dessa jornada … besteiras! Asneiras! – ela também gritou em seu quarto; – o que se perde? O que se perde?! A questão era tão simples … tão simples …

Em pé, agarrando o seu próprio corpo, ela riu enquanto continuava no vale de memórias, enquanto os seus pés dançavam, como se cambaleantes, até terminar na cama com lençóis de acetato bege e uma colcha de poliamida branca.

Ela olhou para cima, para o teto de cor salmão, manchado com estrelas plásticas, grudadas com uma cola eterna, da qual fazia perdurar a fantástica constelação sobre sua cabeça.

Muito belo, porém vendo-as, ela se lembrou do dia em que conheceu Um, e de todas as questões que se desenrolaram a seguir, um pouco parecidas com a atual situação de Jean, porém menos misteriosas, um pouco clichê para ser exato; algo que acontecia um pouco demais nos livros que ela amava lê em seus dias livres!

quando eu passei por aquilo … eu não sei se passei por aquilo, mas entendo que estive em algo parecido … – ela relembrava, quase vivamente, nos fragmentos que se permitiam se mostrar – quando eu passei … me lembro bem: Um entrando no ambiente, batendo palmas, com um sorriso … o sorriso bem característico … porém, meu deus … porém …

Das suas lembranças, Anne se via numa perseguição não usual, onde um detalhe, bem pífio detalhe, do qual muitos deixariam passar em suas vidas, lhe escapava, sempre que tentava tatear.

Era um detalhe do qual ela só viu uma vez, mas que, por seu pouco carisma, a deixava inerte em sua busca explosiva, tornando-a a se avermelhar, entre os lençóis, um pouco ásperos.

e se, na verdade, aquele sorriso foi apenas um sarcasmo, bem pessoal … sabe … o que eu faria, o que eu faria? Será que Um está decepcionada comigo? Desde aquele dia? O que eu faria? – Anne começou a chorar, numa excitação que ela não costumava mostrar ao público; – nada! Essa é a resposta: nada! Pois Um já tem um substituto para mim … um substituto que anda bem, pelo caminho certo, mesmo sendo fraco! Fraco! Fraco?

Próximo na base de sua bochecha esquerda, onde lágrimas caíam, uma pequena e sincera poça se infiltrava entre os fios do lençol, deixando-a deprimida por um momento, pela sua fraqueza.

eu acho que deveria ficar feliz por Jean … ele é o meu tão estimado irmão, pelo menos nas palavras de Um … porém … porém … não sinto que ele seja, apenas vejo um pequeno e fraco cabeçudo, que não entende o mundo em que está entrando … que não vê o futuro medonho que se aproxima …

Endireitando sua postura; sentando-se na borda cama; Anne limpou suas lágrimas, com as mangas de seu casaco moletom, umedecendo o mesmo, com a sujeira das emoções tão complexas da pequena menina que terminava, numa compreensão incompreensiva, sua poesia tão pessoal:

Jean é um tolo, um ingênuo, um covarde! – ela fechava seus punhos num protesto idealizado; – porém, não está tão distante da minha pequena eu do passado, e, talvez, nem mesmo distante da minha pequena eu de agora …

Anne simulou, uma outra vez, um belo pedido de desculpas, enquanto ficava presa entre os seus pensamentos, até que acabou por se ajeitar e dormir, com o seu belo pijama rosa bebê e suas meias que subiam até os seus joelhos, deitando-se confortavelmente na quente cama, sonhando, por fim, com o próximo dia, se é que podemos chamar de dia, no enorme complexo, sua casa.

Pena que a noite não se finalizou, como desejávamos, tendo Anne a estranha visita, no meio dos seus queridos sonhos, onde pensamentos, sentimentos, e o resto flutuavam no que costumamos chamar de monólogos, enquanto a porta fazia seus ruídos, permitindo a entrada de uma bela empregada, cujos os olhos mortos apresentavam a si e o seu propósito:

Anne Two, minha senhora te requisita na sala de vídeos!

Nossa protagonista, passageira protagonista, acordou sem susto, mostrando seus olhos mortos também, porém sem os belos propósitos que a dama Zero pegava emprestados de sua senhora, espreguiçando-se lentamente, enquanto respondia com sua frieza:

espere apenas eu me ajeitar!

Deixando a dama em pé, vendo o trocar de roupas, tão lento e descabido de vontade, que irritaria uma pessoa de verdade, Anne suspirou, de forma que pudesse irritar uma pessoa normal! Por sorte, Zero não era uma pessoa, mas não que isso importe muito nos dias de hoje …