A Voz da Névoa: Capítulo 13

Parte 16 – O doloroso molde para o corpo [Fragmento 4]!

 

– AH!

 

Durante algum tempo, Jean socou.

 

Pode-se ter passado dias, pode-se ter passado horas; Jean socava, de todas as formas que podia, independente, até que, nas várias insanidades imorais, sua carne se abria, espirrando o sangue junto com a dor, seguida da ardência clássica de pele esfolada, enquanto caía se anestesiando, mordendo os próprios lábios, coitado!

 

– esse é o meu limite por agora … – Jean, vendo, não se impressionou.

 

Durante o largo tempo que estava naquele ambiente, quantas vezes o nosso protagonista não caiu cansado, com os punhos abertos, sangrando.

 

Se fosse vê pelo gramado sintético, ao redor da estaca, apenas sangue se mostraria. Sangue seco, já preto, como orvalho naquele falso ambiente.

 

– você não deveria se esforçar assim, meu jovem …

 

Dois M …, digo, Jean, adormecido, se encontrava dentro de um espaço fantástico, onde parecia ser um jardim, estando sentado em uma cadeira confortável, com uma xícara de porcelana fumegante em mãos.

 

– quanto tempo …

 

O velho homem que aparecia dessa vez não era bem um velho, podendo se avaliar como um bom homem no meio da idade, com uma barba que se intercalava entre o preto e o branco, assim como o cabelo, mostrando poucas rugas e tendo a pose ereta, de quem ainda tem alguma esperança no mundo.

 

– você parece está sofrendo um bocado nesse espaço, mas acho que isso é bom. Para um masoquista como o senhor, a dor é um prazer bem querido, não é mesmo?

 

Jean não respondeu, ele estava aproveitando do sono.

 

Por algum motivo que ele pouco compreendia, está naquele espaço o dava alguma sensação de conforto e alívio, pouco sentido ao longo de sua vida sofrida.

 

– quanto tempo estou sem vir aqui?

 

– mais do que eu esperava, para dizer a verdade!

 

Jean olhou para o homem, sentado naquela cadeira, com um sorriso amigável, bem como os das pessoas que esperam falar bastante.

 

– você sabe … – Franker continuou – eu só venho quando você precisa, o que é bem irritante, pois muitas vezes você já precisou de mim, mais do que o esperado … também …

 

– Isso não é culpa minha. Não se pode culpar o azar!

 

– ha! Faz sentido … – O homem entrelaçou suas mãos e cruzou as pernas, enquanto delicadamente bebia sua bebida – porém o azar é para os culpados, o que antigamente se chamava karma. Mas não vou me aprofundar, isso não é uma história de cultivação. As relações humanas não são centralizadas em indivíduos fantásticos. Na verdade eles estão tão distantes, que chega parecer falso a existência dos mesmos.

 

– não entendi muito, porém não sei se é bem importante.

 

– é claro que não é … – Franker respondeu sorrindo – na verdade, em minha posição, acho que não tem mais coisas importantes … de todas as formas, acho que nem mais a minha existência importa, logo nós não precisamos dissecar essas dúvidas tão supérfluas.

 

Jean suspirou, sentindo uma pontada que escapava pelo seu peito. O que existe? Era o motivo da mesma, porém ele realmente não se importou. Uma questão mais importante se alinhava entre as palavras e os desejos, tornando o resto apenas em ninharias.

 

– como soco? – Ele perguntou, sem sorrir, sem se mover, sem respirar; Ele apenas perguntou como uma rocha, desejando entender o motivo de sua inércia.

 

– socando, ora! – E o velho respondeu, com um sorriso. A idiota pergunta fez sua falsa barriga sentir um calafrio cômico, do qual ele bem esperava.

 

– como destruo uma tora com os meus punhos? – Jean, ainda não se comprometendo, continuava a peguntar, com os olhos inflexíveis, de um maníaco obcecado nas questões mais absurdas.

 

– aí depende – O velho continuou a responder com o mesmo sorriso – tudo é diferente, mesmo parecendo ter um mesmo início. Ou seja, se tudo é diferente, logo precisamos de métodos diferentes para resolver certas coisas. Pelo menos é isso que eu aprendi com um homem chamado Lyotard. Não existe mais métodos supremos, por mais que queiramos. O que existe são diversas coisas, que separadas totalizam o que devem e que juntas, fazem o mais de tudo. Então, compreendendo dessa forma, uma tora de madeira pode ser destruída de várias formas, ou de uma só forma, ou … bem, deve ter entendido a ideia.

 

Jean pôs a mão no queixo, pensando no que perguntar, porém ele sentia que o velho, outra vez, faria uma malabarismo sem realmente explicar, por isso, ele decidiu escapar.

 

– como você destruiria uma pedra?

 

– com toda a força do meu corpo!

 

– e como isso seria?

 

O velho então tirou uma pedra, do tamanho de um punho, dos bolsos de sua túnica, já bem icônica desde o início, e a jogou no ar.

 

– veja!

 

Se levantando, ele torceu os seus pés e o seu corpo num movimento muito rápido, enquanto o seu braço, bem humano, girava como uma broca, acertando a pedra no ar, que, como se paralisada, explodia, lançando a poeira que caía e os destroços que voavam em direções tão dispersas.

 

– o que foi isso?! – Jean perguntou, não compreendendo a imagem que se mostrava.

 

– uma das milhares de formas para se destruir uma pedra!

 

Jean então entendeu, por fim, o que o velho queria dizer, e com um sorriso, quase desmaiou com uma ansiedade incompreensível.

 

– isso … isso … faz mais sentido do que eu imaginava … – Jean respondeu obcecadamente, fazendo Franker, em sua frente, desmanchar seu tolo sorriso.

 

– não deveria fazer … – ele continuou – a verdade é que nada funciona sozinho, para simplificar o meu pensamento de mais cedo. Para você pensar em copiar, antes de tudo, precisa de um amargo treino, que compreenderá diversas partes de sua anatomia, atualmente, fraca. Então, não pense que isso faz sentido, muito pelo contrário, diga que não faz sentido, buscando nessa incerteza algo para clarear sua mente e incertezas!

 

As palavras, que vinham, não atingiam o maníaco Jean, que perdido em seus pensamentos, sorria, enquanto finalizava.

 

– a verdade é: nada fez tanto sentido para mim quanto esse soco. Acho que devo te agradecer no próximo beco que eu encontrar, não estou certo?

 

O velho fechou o seu punho, com uma decepção atípica.

 

– acho que sim – Ele disse, com um sorriso melancólico; – meu velho Dois Meia.