A Voz da Névoa: Capítulo 12

Parte 15 – O Doloroso molde para o corpo [Fragmento 3]!

 

Pelo complexo, Jean foi levado pelos corredores até um enorme salão, cuja paisagem era recheada com pedrinhas brancas perto de um pequeno lago de cor verde, onde uma árvore de salgueiro sombreava da luz artificial emitida pela grande tela no teto alto.

 

Essa era uma imagem bem simples, de forma bem natural, mas que preenchia Jean com um sentimento bem terrível de adoração.

 

Vivendo em meio a névoa e os muros cinzentos, a natureza acaba se tornando um vínculo esquecido entre o divino e o mortal.

 

– então, meu caro Seven – Disse Um num deboche típico; – vê aquela tora ali, fincada ao chão?

 

Jean gesticulou com a cabeça, enquanto engolia a própria saliva reprimida.

 

Um aplaudiu o ato, lhe explicando:

 

– com suas mãozinhas, tão frágeis mãozinhas, quero que você a destrua, podendo a partir ao meio, ou, não sei, tirar suas lascas, uma a uma, até não sobrar nada. Desde que a destrua, fico bem e é apenas isso o que desejo de ti.

 

Jean olhou para a tora, vendo como era lustrada e resistente a madeira que tinha mais de 8 centímetros de largura e dois metros altura, fazendo sua mão coçar com o pensamento.

 

– sim – Jean respondeu, imaginando o quão difícil seria parti-la com suas mãos; – eu posso fazer isso …

 

– ótimo! Já que é assim, esperarei bem sentada em minha cadeira! Tente não quebrar o punho ao menos, jovem. Isso dará mais prejuízo do que … bem, do que qualquer coisa.

 

E assim Um saiu pela porta, deixando Jean, sozinho naquele enorme ambiente.

 

– o céu é apenas uma tela transmitindo o que tanto desejamos – Jean pensou; – e o ar que aqui entra é apenas aquecida por algum ar-condicionado central. Essa tora de madeira, então, deve ser apenas outra coisa falsa, como a grama, como a árvore, como o lago, como tudo!

 

Jean levantou o seu punho e golpeou com um soco tão fraco que a estrutura sequer  tremeu, mas que, todavia, ainda fez o seu punho inexperiente sentir uma dor latente, de um choque tão comprometedor, que ocasionou do nosso pequeno Jean apenas se esconder entre a grama sintética e a areia negra oculta do carpete.

 

– isso … é … não! Eu, eu já esperava isso …

 

Jean se levantou, mordendo o seu lábio, convicto de algo, e golpeou uma segunda vez, tentando mudar a forma como se projetava o seu punho, para esquivar suas mãos de outra dor inevitável.

 

– argh!

 

Porém outra vez veio a dor, junto com a insignificância de um golpe.

 

– isso não está certo! – ele pensou por um momento, enquanto trocava sua mão para golpear; – essa madeira parece uma rocha e o meu punho uma almofada, como é possível?

 

Jean tentou golpear de forma mais fraca, tentando compreender a organização atômica da madeira, com seus olhos humanos e inaptos.

 

– como eu posso? Essa madeira é de certo uma rocha, então … como eu posso?

 

Com as mãos abertas, nosso protagonista encarou-as com receio: elas eram ásperas, como toda a mão proletária é: com calos gritantes, além de uma cor amarelada pouco natural.

 

– essas mãos trabalharam, porém ainda assim são fracas … então, como eu posso?

 

Jean olhou os seus braços também: eles eram magros, pela constante fome pertinente que ‘os grandes e bem-sucedidos engravatados’ já tiveram um dia, tendo uma cor branca doentia, pela ausência de sol nas suas semanas tristes.

 

– minha força foi roubada, e quem a pegou? Bem, parece que não sei, porém, ainda assim, não sei como eu posso …

 

Jean continuou socando de uma forma fraca, usando diversas técnicas autodidatas, das quais usava diversos ângulos desconhecidos, socando com partes bem inusitadas de a sua mão.

 

Era um treinamento de autorreconhecimento, Jean compreendeu.

 

Como nunca havia treinado com suas mãos, ele precisava de prática, muita prática para ser mais exato.

 

– minha força … minha tão amada força …

 

Jean, insanamente, socou, socou e socou, até que o limite lhe veio, fazendo-o desmaiar na desconfortável grama sintética que lhe agarrava a alma …