A Voz da Névoa: Capítulo 10

Parte 13 – O doloroso molde para o corpo [Fragmento 1]!

 

E ali, naquele dojo, Jean começou a se esticar, se contorcer e. por fim, relaxar. Um havia explicado o que ela desejava para o nosso protagonista e o mesmo fazia sua vontade, estirado no chão, percebendo o quão fraco seu físico era.

 

‘49 técnicas de alongamento … o básico do básico para treinar, ao menos, o corpo!’

 

Dentro do dojo, o tempo passou, seus tendões rígidos eram domesticados, sua postura endireitada, seu corpo trêmulo agilmente fortificado com as juntas sendo postas nos seus devidos lugares, onde nunca sequer deveriam ter saído.

 

Jean passou horas, ou dias, ou quanto tempo pudesse. A ausência de janelas e a luz industrial que sempre deixava o espaço claro como o dia, fazia com que o tempo passasse a sua maneira, fazendo Jean treinar tanto quanto fosse, sem sequer ficar cansado pelo tempo.

 

Nesta, ele não se impediu de se alongar e se alongar, pondo a perna em posições absolutamente estranhas, se enrolando em si mesmo, como um circense, até, por fim, se desembaralhar, fazendo com que o seu corpo relaxasse e latejasse.

 

Esta repetição, que levou o seu corpo, no tempo que há passado, numa confusa exaustão, o fez cair por fim, com o suor inundando aquele gélido piso lustrado, tornando aparecer a bela dama de olhos âmbar que perfurava aquele dojo com o seu ser.

 

– vejo que você treinou bem, ótimo! – Ela vestia um macacão beje feito de tecido moletom caro com uma blusa amarela por trás, dando-a um ar meio masculino sem tirar, é claro, toda a beleza disponível; – agora podemos passar finalmente para a primeira parte do seu treino, que é aprender, finalmente. a maldita técnica do [punho da conflagração]! Animado para tal?

 

Jean deu um sorriso confirmando. Seu corpo, moído, não se levantava, não respondia, sendo apenas o sorriso disponível para dizer, no mínimo, o que sentia.

 

O cansaço causa, normalmente, causa isto.

 

– é bom vê-lo animado, Seven, porém, nesta condição vejo que não poderá fazer muito! – Um se agachou e tocou no corpo cansado e desmoronado de Jean, cutucando os flácidos músculos com seu dedo mágico; – tome um banho e descanse: quando for a hora será, é apenas isto que te aviso!

 

Pela porta dupla que se abria, uma bela dama entrava segurando uma toalha branca e roupas limpas, de tecidos que Jean sequer imaginava que usaria um dia.

 

– esta é Zero, você já deve conhecer ela! – Um apresentou a dama com um sorriso; – ela é um clássico modelo de [cidadã sem alma]! Um ser mecânico de inteligência fabricada cuja a única utilidade é nos servi, nós as pessoas de ação!

 

Jean não entendeu de todo, e sequer entendeu o pouco. Ele apenas sentiu uma estranha crueldade nas palavras daquela em sua frente, vendo na inexpressiva e silenciosa que segurava na porta, uma compaixão sem fim.

 

– ela te levará a um bom lugar para se banhar, além de que, poderá, veja bem, poderá fazer desaparecer qualquer cansaço num passe de mágica! Siga-a logo e desaparece de minha frente!

 

Jean se levantou, quase não sentindo mais a fadiga que sentira minutos antes. O dedo mágico era realmente mágico, Jean não duvidava. Porém, talvez, o pequeno e desprezível ser que vivia dentro dos anais de sua mente duvidasse … mas como desaparecia aos poucos, não se vale muito comentar!

 

*

 

Pelo complexo, o emaranhado que era os corredores mostrava o minimalismo dos móveis, das paredes, do piso, de tudo, como se quisesse dizer algo para Jean, que desdobrava cada parte do corredor em dúvida:

 

– o que é uma cidadã sem alma!

 

Jean conhecia a famosa polícia automatizada que vagava entre as fábricas nos finais dos expedientes e os maquinários que auxiliavam a vida dos engravatados que bem trabalhavam dentro das torres administrativas, porém nunca havia escutado sobre essas cidadãs sem alma.

 

– será que isso é alguma metáfora, ou será que … não sei, pode ser apenas mais uma frase do passado, cujo sentido já foi perdido …

 

Jean atravessou os corredores brancos, passou pelas portas diversas e parou, por fim, em frente a uma porta dupla deslizante feita com aço. Adentrando, diversos armários militares, de cor cinzenta eram vistas num espaço parecido com um banheiro de ginásio, com bancos comunais atravessados entre os espaços e ganchos fixados em colunas feitas de madeira, para pôr a roupa enquanto se troca.

 

De certo não era um local de todo avançado, ou que houvesse sequer traço de tecnologia, por isso impressionava ainda mais Jean.

 

O luxo é luxo, independente de sua pobreza ou não. A tecnologia serve apenas para diferenciar as coisas!

 

– troque-se! – Zero disse sem expressão, como uma ordem entalada na sua garganta; – te acompanharei durante o banhar. Sua condição física aparenta está boa, porém é uma mentira. Sua condição declinará no momento em que você tocar as águas, perdendo a capacidade de movimento. Lhe auxiliarei para que não tenha a possibilidade de que o senhor morra afogado.

 

– fria e direta – Jean pensou no fim do relatório; – quando a vi pela primeira vez, não me lembro ao certo de vê-la assim … porém, ao mesmo tempo, me pergunto: o que mudou?

 

Jean se sentiu incomodado por tirar suas roupas em frente a uma mulher, porém, como uma ordem, ele decidiu não desrespeitar, se despindo completamente, como pôde, revelando, de forma bem constrangida, o seu corpo aos ares daquele local.

 

Zero também retirou suas roupas, ficando caracteristicamente nua, deixando se soltar os seios perfeitos, como se fosse feito de plástico, e todas as curvas necessárias para tornar uma mulher ideal.

 

Em primeiro momento, Jean desejou não espiar, parecia errado, porém Zero era fria, parecia não haver sentimentos, tornando o mesmo a ver, porém, em vez de engolir saliva, como os mais pervertidos possivelmente o fariam, Jean apenas ficou estático, sentindo uma pontada de tristeza em seu peito.

 

Não era explicável tal, ele apenas sentia, como um ataque repentino.

 

– talvez sejam esses olhos … – Jean tentou justificar; – ou talvez, simplesmente tenha apenas algo muito errado comigo.’

 

Vendo-a, Jean se calou, e se aprofundou nos olhos pouco característicos, se afundando, como podia, no mar da estranha sinestesia que o apunhalava.

 

– podemos? – Zero perguntou, por fim, com o mesmo olhar e a mesma frieza e Jean confirmou com a cabeça, como se a despertar de uma alucinação sem cores.

 

E assim, eles saíram daquele local, e entraram, por fim, no grandioso banheiro onde reis, talvez, degustassem seus camarões e coquetéis num passado não tão distante.