A Voz da Névoa: Capítulo 1

Um prólogo para o jovem que morre!

Parte 1 – A morte!

Era uma tarde chuvosa quando, num beco escuro, duas pessoas distintas se encontraram. De um lado: um jovem de cabelos castanhos numa bicicleta; No outro: um velho moribundo de barba e cabelos grisalhos morrendo. Era uma tarde chuvosa, e o jovem tinha pressa, em contrapartida, o velho aproveitava cada segundo daqueles que eram os seus últimos.

‘como?’

O jovem jogou sua bicicleta no chão e foi socorrer o velho ensanguentado. Sua mochila caiu no chão molhado e seu uniforme se encontrava ensopado. O velho tossia sangue e no seu peito, um buraco.

“meu senhor, meu senhor!” O garoto gritou; “quem fez isso com o senhor?!”

A visão do velho estava turva, tudo parecia ser o mesmo cinza embaçado e infinito que se degradava constantemente. O garoto, no entanto, ao gritar, fez os sentidos que se perdiam, reencontrar-se.

“não grite garoto!” Disse o velho; “faz os meus ouvidos doerem!”

“o senhor não parece bem? Deixa eu te ajudar … há um hospital aqui perto e …”

O jovem foi interrompido pelo velho que sentia sua cabeça latejar aos gritos carregados de pânico que invadiam, penetrante, a sua consciência efêmera e embranquecida.

“eu não posso ser ajudado … argh!” O velho cuspiu um bocado de sangue; “o golpe do maldito invadiu o meu peito, destruiu meu coração … vou morrer!”

O garoto não entendeu, mas, ainda assim, se achou no dever de ajudar.

“não diga isso, veja, é apenas superficial” Ele mentiu; “se eu te levar num médico, você será ajudado e poderá viver o resto de sua vida!”

O garoto gritou!

O velho sorriu!

A morte inevitável, que injetava em suas veias o vazio, colidiu com um estranho sentimento que queimava em combustão com a voz estúpida e nervosa daquele jovem, magro e fraco, que se apresentava em sua vista.

O velho pensou por um momento:

‘e se eu usasse esse moleque, o que poderia acontecer?’

E se pôs a falar em seguida, à vista que sua visão, turva, começava a embranquecer, ainda mais intensamente:

“você pode me ajudar, só que para isso, terá que morrer! Argh … coff, coff!! Você ainda quer me ajudar?”

O jovem, em sua honestidade inquebrável, incontrolável, continuou sem entender o velho, porém, em sua vil honestidade (burra, rasa e irracional), sentiu que era prioridade salvar a vida do velho, sem importar qualquer mentira que pudesse sair de sua boca naquele momento.

“sim!” O jovem respondeu com certo desespero; “desde que o senhor esteja bem, não me importo muito!”

“você é muito idiota moleque! Deveria ter saído daqui na primeira oportunidade!”

O velho segurou o pulso do jovem que brilhou numa aura dourada.

O jovem ficou aturdido com o movimento e não entendeu o motivo pelo qual o seu braço brilhava.

O velho, então, morreu. Seus olhos cansados fecharam e sua mão gelada caiu. Numa frase curta e pouco entoada na cabeça do jovem, um fuja se apresentou, e o mesmo, tentando compreender todos os sentimentos complicados de seu corpo, escutou e saiu.

Sirenes foram escutadas e uma multidão apareceu na sombra do beco que se apossava de sua mente.

O jovem, que não sentia nada para o velho aleatório que apareceu de repente, chorou em uma estranha tristeza.

Uma tristeza que os seus sentidos não compreendiam.

O garoto dormiu em sua cama para se esquecer do estranho dia ocorrido.

Parte 2 – O sonho!

O jovem, de número 267.432.157, era um órfão apelidado de Dois Meia, que vivia num orfanato para menores da quinta rua do obscuro bairro de blacklight. Ele dormia num quarto junto com outras 27 crianças de várias de idades e tamanho.

As noites no orfanato eram particulares. Meninos fugiam de seus quartos para se encontrar com meninas, ou com suas gangues ou apenas para fugirem mesmo.

Dois Meia percebia e escutava os sussurros, porém não se importava, não invejava. Não nessa noite pelo menos. Dois Meia, diferente das outras crianças, dormiu direto, como um jovem mais crescido e cansado. Seu dia havia sido desgastante e seu corpo rogava por uma cama quente e macia para dormir e sonhar. Claro, as camas do orfanato eram duras e frias, como uma rocha, porém ele poderia mentir um pouco para si mesmo.

Dois Meia se deitou então, e, antes de reclamar da qualidade das camas, adormeceu.

Sua visão escureceu, seu corpo relaxou, sua alma suspendeu.

Mas, antes do amanhecer, quando ele acordaria reclamando da dor nas costas causada pela cama de péssima qualidade, Dois Meia sentiu o cheiro de lavandas surreais, que apareciam no mundo de seus sonhos, criado pela sua mente entorpecida, angustiada e cansada.

“olá!” um velho novo, de túnica branca, barba limpa e nenhum buraco no peito apareceu; “você deve está confuso jovem, mas não se preocupe, todas as suas perguntas serão respondidas …”

O jovem olhou para o velho, aturdido e admirado. Os sentimentos de perda que imperavam em sua mente minutos antes foram lavados para longe com a presença patriarcal do morto que jazia vivo.

Dois Meia suspirou, tentando conter os sentimentos falsos construídos pela sua mente que desejava abrigo.

“mas o que você poderá responder?” O jovem, após uma pequena pausa, respondeu, desanimadamente; “você é apenas a sombra de uma tristeza incompreensível … apenas mais um morto em minha memória breve e mista.”

O velho olhou para as paredes do sonho, olhou para as lavandas surreais e então voltou para o garoto.

“fale coisas com sentido, seu maldito!”

“como?”

“você é um verme chorão que fala coisas sem pé e nem cabeça! Chorando para um velho aleatório que morreu num beco escuro? Veja o lugar onde você vive: é uma latrina a céu aberto! Não deveria se preocupar com todo morto que te aparece!”

O queixo do garoto caiu, ele acreditava que o velho fazia parte de um pedaço da sua mente, uma parte bem obscura dela.

“Então eu deveria ter deixado você morrer?”

“bem … possivelmente! Assim haveria apenas uma pessoa morta!”

Dois Meia se lembrou do ocorrido no beco chuvoso e ponderou por um segundo!

“e por que eu estou morto agora?”

“essa pergunta é muito simples, porém você não vai conseguir compreender ela até perguntar a primeira pergunta que dois diferentes fazem em seu primeiro encontro!”

“e qual é essa?”

“pergunte-me meu nome …”

“…”

“é uma questão de educação garoto, você deve entender … né?”

“e qual seria?”

“Franker Médzsci! Criador do estilo A-D, você já deve ter ouvido falar de mim!”

“é …”

“sério? Que ignorância sua! Mas bem, não me importo! Sou um famoso lutador marcial e isso é a única coisa que importa!”

“se você é alguém tão importante assim, por que morreu?”

“língua afiada menino, mas que seja, vou te responder! Eu não morri, me assassinaram!”

Os olhos do menino tentavam acompanhar todo aquele absurdo sem rir. Sua mente produzia uma história fantástica e estranha, sendo quase um desvaneio hilariante cujo significado se igualava a zero.

O velho reparou nisso.

“Você ainda acha isso impossível? Um morto aparecer em sua mente? Sério, de todas as coisas, logo isso? Você vive numa sociedade que te dá números como nome, que te diz que você é inferior por não ser de uma família grande e que te trata como um escravo cuja a única ambição é para com os objetivos de pessoas que cospem em você lá de cima! Você não deveria acreditar nesse seu estado de vida, isso sim!”

“fica quieto” O menino se irritou; “você é apenas um traço de uma pessoa que passou rapidamente pela minha vida! Você não existe!”

“realmente não existo! O que eu sou agora? Sou a essência do meu corpo original! Um rastro de minha existência! A única coisa que eu era antes de está aqui! E você garoto é o meu herdeiro. A pessoa que manterá a minha essência viva!”

[Boom]

O mundo idílico de sonhos começou a se despedaçar, as lavandas a morrer e o velho a desaparecer como poeira dourada na escuridão que se alastrava por todo plano.

“merda, parece que você terá que me ver outro dia, seu fraco! Merda … até a próxima, garoto, tente não dormir tão cedo!”

O menino então viu um fio de luz perfurar a poeira negra do quarto e sentiu por fim as famigeradas dores na costa que o aportunava toda manhã.

Diversas crianças se levantavam de suas camas e bocejavam.

Freiras, como pinguins, invadiram o quarto acordando aqueles que ainda estavam indispostos para despertarem sozinhos.

Dois Meia bocejou e levantou, correndo em seguida na direção da sua ordinária vida matutina como um órfão qualquer.