Radiation – Parte VII (atualizada)

Lágrimas.1

Ainda eram 10 horas quando toda aquela enxurrada de eventos ocorreu, caindo como luvas no meu colo despreparado, cujo do qual apenas queria fugir! Estava perdido, e acho que a menina chamada Sthefani também estava, já que as suas pernas esguias estavam trêmulas, como as minhas, e seu belo rosto parecia conter alguma forma de ansiedade indescritível.

Vendo minhas mãos encapadas com luvas pretas de coro, que estavam manchadas com pingos de sangue, e sentindo minha costela doída, eu respirei profundamente, enquanto virava minha cabeça, para olhar os cadáveres, segurando meu vômito.

Nesta imagem, minha cabeça divergia em dois dramas distintos: eu estava numa encruzilhada em que minha vida corria certo risco, além de que também percebi que aquela foi a primeira vez que realmente matei.

O sentimento, você me pergunta? O sentimento que senti foi bem diferente daquela vez que ataquei aquele infectado na escada de incêndio, era como se fosse algo bem diferente, como se dessa vez importasse de alguma forma. Não sei, o sentimento de tirar uma vida pela primeira vez, para resumir de verdade, foi um culpa furtiva, que não parecia ser bem culpa; um remorso meio fosco que se apagava num orgulho idiota! Era isso, que me deixava paralisado, durante alguns segundos, observando aqueles cadáveres, do qual matei tão mecanicamente!

[Pah!]

O som das batidas dos zumbis naquelas portas se assemelhavam a tiros.

[Thump]

E os sons que ressoavam, de meu ansioso peito, se assemelhavam com um tambor.

[Pah!]

O medo e o pavor tomaram conta de meu corpo tremuloso e embranqueceu todas as partituras do meu cérebro. Tudo que eu podia sentir, ou que eu podia pensar, parecia se tornar uma com sombra de uma consciência quase viva que desejava a minha morte; que desejava a minha carne e entranhas; que desejava que eu fosse o mesmo ser do que elas.

nem fodendo que isso vai acontecer!’

De supetão, eu retirei a minha mochila das costas e comecei a vasculhar ela como um lunático.

o que você está fazendo?” Perguntou a menina Sthefani, como uma criança nervosa após quebrar um prato.

tome pegue isso!” Continuei falando, para explicar minhas ideias. Gloriosas ideias! “Eu tenho um plano que vai nos salvar, mas eu preciso que você me ajude com isso! Toma pega logo!”

O que eu procurava na minha mochila naquele momento era a minha corda de emergência. Desde o começo eu havia visualizado um cenário parecido como esse, por isso eu sempre era tão precavido com cordas.

Eu dei para ela, para se fazer alguns nós. Enquanto isso, eu fui para a cozinha tentar saquear comida. Eu peguei tudo o que eu podia da dispensa tão rápido que eu pude e saqueei algumas coisas da geladeira também. Como eu fui bem apressado com tudo aquilo, acabei deixando um pote de azeitonas cair, mas dado o desespero do momento, eu não me preocupei de todo.

Voltei para o quarto com pressa. Sthefani só havia dado uns dois nós na corda, mas dado o quão apressado eu fui com o saque, pude presumir que ela estava trabalhando numa boa velocidade.

Decidi continuar saqueando a casa. Comecei pelo armário, tirando todas as coisas úteis, sendo estas uma mochila que recarrega bateria com energia solar, um relógio mais decente para o meu braço, além de um laser de brinquedo e um canivete suíço.

Saqueei as gavetas também, mas a única coisa que eu encontrei de interessante foi um soco inglês dourado repleto de quinquilharias, que nem daqueles que rappers americanos usam (ou usavam). Eu também roubei o celular do homem da casa, para saciar Sthefani, que tem um gosto bem peculiar sobre vasculhar a vida alheia.

Além destas, peguei o desodorante em cima da mesinha de cabeceira e saqueei a dispensa de remédios dele. Como eu percebi que ia perder uma boa corda, eu também me propus a procurar outra no apartamento dele. Pena que por azar do destino não consegui achar nada.

Dois minutos se passaram e Sthefani finalmente conseguiu fazer 13 nós, enquanto eu lotava minha mochila com tudo e mais um pouco. O som que saía de cada batida na porta soava cada vez mais firme e cada vez mais forte, fazendo com que a minha alma quase rompesse em pavor a cada ressoar.

me dê uma das pontas da corda!”

Ela me entregou rapidamente e, de supetão, corri até a apavorante porta. Com mãos tremulosas e ansiosas, eu fiz e refiz quatro vezes um nó, enquanto a porta era cada vez batida mais violentamente. Depois de 10 segundo de tentativa, eu consegui.

[Crack!]

Na parede, onde as dobradiças da porta foram instaladas, rachaduras começavam aparece e pó começava a cair das suas ‘feridas’ recém-abertas. Era só uma questão de tempo até que a porta fosse derrubada.

Joga a corda pela janela e desce! Me encontra no andar de baixo! Lá provavelmente deve está vazio! Se por algum acaso você achar algo estranho, entre! Entre assim mesmo, pois as ruas estão mais perigosas que um quarto com um ou dois infectados desavisados!”

Ela pegou a outra ponta da corda e jogou pela única janela do quarto. Em seguida, ela cuspiu na mão e se pendurou pela janela. Um pouco receosa, ela desceu pela corda, lentamente. Eu segui ela em seguida, e fiquei olhando lá de cima durante um curto espaço de tempo. Depois que ela tomou alguma distância, eu desci junto com ela.

Fazer rapel, se assim posso chamar, era algo que eu não estava tão desabituado, já que, algumas vezes – foram apenas três vezes – meu pai me levou para a Patagônia, para escalar montanhas. Eu fui duas vezes para o Chile e uma vez para a Argentina. Ele me disse que queria me levar algum dia para a Alemanha, ou para a China, porém ele morreu antes de cumprir sua promessa. Triste lembrança de um playboy de merda.

No parapeito, comecei me apoiando pela janela e depois peguei na áspera corda. Como eu estava de luva, o atrito não machucaria minha mão de todo, porém, ao suspender o meu corpo, enquanto segurava na corda, percebi que minhas mãos ainda se desgastariam com o meu peso, logo eu tive que buscar uma posição que distribuísse melhor meu peso, fazendo com que eu colocasse meus pés na parede. A mão ainda doía, porém era menos danoso.

Eu comecei a descer ‘nó por nó’, lentamente, até o terceiro andar. Coisa fácil, se vê, porém eu não sabia como Sthefani estava se saindo com a corda, por isso eu fui lentamente!

Eu tentei olhar para baixo e acabei percebendo que ela até mesmo já havia chegado lá embaixo. Com isso, me senti meio tolo por duvidar das capacidades dela.

Comecei a descer mais rápido, mas ainda com discrição. Caso eu caísse dali, seriam quatro andares de queda livre. Eu poderia sobreviver, mas essa sorte viria com um preço: o preço de um braço ou uma perna. Não me arriscaria com isso, sabendo que as ruas estavam infestadas de zumbis.

Porém …

[Crack!]

A porta que segurava a horda de zumbis finalmente dava os últimos suspiros como uma barricada improvisada e se espatifava lá de cima. Como todo meu testemunho se deu apenas na aterrorizadora surpresa que era ver meu corpo caindo como uma pena, eu não consegui ver, mais ou menos, qual foi a trajetória que a porta fez para que meu corpo sofresse aquele coice, porém eu consegui adivinhar ainda que a porta, felizmente, se prendeu pela janela, por mais que a mesma não fosse suportar por muito mais. Desta forma, como um Tarzan fora de forma, me joguei, caindo pela janela do terceiro andar, tendo Sthefani me observando estranhamente.

ei!” Ela me perguntou quando me viu, de repente, aparecer pela janela; “o que houve! Como você caiu assim?”

Meu coração batia rápido, eu estava meio assustado e bem ansioso. Quando a corda começou a cair, eu fiquei em dúvida entre largar e tentar agarrar o parapeito como um praticante de parkur – coisa que eu não tenho nenhuma experiência –, ou simplesmente segurar firme na corda e deixar a sorte me levar. Ainda bem que contei com a segunda opção, se não, poderia não está narrando essa história agora.

as dobradiças não aguentaram … mas vamos deixar isso de lado, você conseguiu achar alguém … e … o que é isso?”

No quarto, que eu entrei tão subitamente, Sthefani apontava meu revólver em direção a duas crianças: um menino e uma menina. Duas criancinhas pardas e belas, por mais que estivessem muito magras, jazendo inertes no outro lado da sala.

o que você está fazendo?” Eu perguntei me aproximando.

eu não sei” Ela respondeu com certo estranho olhar em sua face. Eu até hoje me pergunto o que esse olhar significava.

então abaixe essa arma, são apenas duas crianças!”

mas eu … eu … elas estão mortas, não vê … elas já estão mortas … e eu .. eu … não sei. Isso machuca, é estranho …”

Olhando para as crianças no outro lado do quarto, perto da porta, me aproximei. Elas tinham olhares caídos; olhares de fome; em meio a um abraço do qual as duas protegiam-se uma a outra, com um brilho pálido, bem pálido, de uma faca inox ensanguentada, nas suas mãos amareladas. Em meio esse exame minucioso, eu percebi … percebi … a forma da qual elas haviam se matado … com, por algum motivo, lágrimas caindo pelos olhos.

Lágrimas.2

Eu não sei porque, mas alguma coisa vinha a minha cabeça, sabe: uma coisa de tristeza, daquelas que mexe com o seu sistema … fode com sua cabeça … nos tornando, por algum motivo, sensíveis.

onde estão seus pais?” Eu havia perguntado em minha cabeça, porém um silêncio … oh doce silêncio … foi a resposta que eu recebi; “abaixa essa arma, não há nada aqui …” Então eu disse, mais que fisicamente, para Sthefani, que virava sua face para o outro lado …

Eles podem está infectados!” Sthefani respondeu; “seria melhor se você … sabe … golpeasse suas cabeças …”

Eu fiquei atordoado pois, realmente, poderia ser a verdade, no entanto, é, não queria admitir tal, sabe, era cruel demais admiti-la.

Você é um tolo … podemos morrer dessa forma …”

Não duvido … nem um pouco, no entanto, apenas respondi:

Vamos apenas sair daqui …” me dirigindo para a porta, continuando: “não tem muita coisa por aqui, sabe …”

As crianças se mantinham resolutas em sua mórbida sinergia, observando os vivos passearem por sua sepultura.

desculpa” Disse mentalmente, ao lado de seus corpos, enquanto olhava pelo olho mágico; “droga!”

que é?” Sthefani me perguntava, ainda virada de costas para as crianças.

barricaram o lado de fora!” Eu respondi! “barricaram todo o corredor!”

Sthefani se virou para mim, com um sorriso, bem estranho, com um olhar louco, maníaco, quase como se estive em pânico. Me lembro bem desse olhar, tanto que guardei em minha efêmera memória.

estamos num caixão!” Ela disse desta forma; “com cadáveres apodrecendo! Estamos na merda de um caixão!”

Terminando a fala, ela se dirigiu para a janela, para tomar um ar, ou talvez apreciar a vista. Eu não a acompanhei, indo para o banheiro, sacro banheiro, para lavar o rosto, ou talvez vomitar … um pouco.

mas o que!” No chuveiro, por trás do blindex embaçado, quatro Ak’s se viam, enfileiradas e sujas de sangue, me fazendo gritar, enquanto virava rapidamente para fora; “que porra é essa Sthefani!”

No quarto, as duas crianças, que originalmente estavam encostadas na porta, se viam na cama, sendo enroladas por um lençol!

temos que nos livras delas!” Sthefani disse, tremendo de uma forma que eu não entendia, como se estivesse se livrando de uma praga; “temos que nos livrar delas!”

Eu fiquei um pouco assustado com isso, pois foi bem de repente, porém eu ainda esbocei um sorriso no meu rosto. Também não entendia esse sorriso, o que ele poderia dizer no lugar onde estava? A loucura talvez pudesse ter me contagiado. Talvez … mas naquela situação, não quis entender, olhando apenas para Sthefani, dizendo:  “tudo bem, mas você sabe que isso apenas vai atrair infectados, sabe …”

foda-se!” Ela me respondeu com o seu mesmo ar maníaco; “Achei querosene e álcool, é só queimar, foda-se! Só não quero essas merdas me olhando … entende … com esses olhinhos!”

Sthefani estava louca, no entanto eu não julguei. De alguma forma, eu também estava.

okay!” Eu disse para ilustrar a minha loucura viva, junto com a solução que me tornava daquela forma, cujo qual não sei, desde aquela época até o exato momento em que falo; “apenas deixa que eu te ajudo com isso!”

Naquele quarto, pela janela; naquele mesmo dia, jogamos dois cadáveres embalsamados em querosene e álcool, junto de um pedaço de lenço em chamas, com, talvez, lágrimas aos olhos e loucura na mente. Mas não acho que aquela tenha sido o ponto alto do dia, mas não vamos subestimá-lo.

O que eu fiz e o que eu senti foram inimagináveis, pelo menos para mim, pobre virgem num mundo caído …