Radiation (Parte II)!

Parte II – Erros.

No dia seguinte, me lembro de ter acordado ao som de tiros.

Não sei o porquê ao certo, mas me lembro que pareciam ser fuzis e que os tiros não vinham de muito longe, o que me assustou bastante já que armas de fogo em si são algo que dão bastante medo.

Eu tentei olhar pela minha janela que dá para o beco entre os prédios, porém não dava para se vê nada demais, estagnando assim a minha curiosidade.

Voltei para o meu colchão e me deitei, tentando reorganizar os meus pensamentos. Depois disso percebi que estava com fome, porém, decidi não comer. Eu sabia exatamente a quantidade de miojos (62) e sabia que se eu não regulasse minha dieta, com certeza, 62 miojos não durariam sequer um mês. Se eu fosse pensar em quanto tempo demoraria para que a sociedade retomasse, eu provavelmente morreria de fome, então decidi racionar a comida.

Na verdade, se eu deixasse de ser covarde e fosse para os outros quartos tentar saquear os apartamentos alheios, provavelmente, eu conseguiria comida para até um ano. Mas como ainda estava aterrorizado com a última cena, sair não seria opção.

Então, eu fiquei sem nenhuma alternativa a não ser ficar no quarto até acabar a comida, ficando sem nada para fazer no fim das contas.

Eu pensei em jogar no computador, mas fiquei com medo de que isso gastasse muita energia e me deixasse no escuro. Então tentei ler um dos livros do qual serviam de raque para a minha televisão.

Comecei pegando um, didático, antigo do meu pai (eu tinha uma caixa), chamado: “Introdução da Anatomia Humana”. Eu comecei lendo sem entender muito bem algumas partes, pulando outras, sempre tentando achar uma lógica para tudo aquilo. A leitura, do qual eu nunca fui muito fã, se tornou realmente interessante e acabei passando a tarde me esquecendo da fome e do tédio.

Durante a noite, em que eu não podia ler em questão da escuridão (me privei de ligar a luz de noite para não chamar atenção), comecei a fazer flexões e abdominais, tentando pôr em práticas algumas coisas que eu aprendi no livro (apenas o básico; o óbvio). O que me fazia suar bastante e fazer o quarto feder a ginásio de academia.

Depois que eu caí de exaustão sem poder fazer nada de decente, tornando-me a puxar um dos meus cadernos antigos e a escrever diversas anotações sobre o treino e onde estava localizado cada ponto de dor. Como estava com pouco sono e bastante entediado, comecei a fazer um mapa do prédio e da rua onde eu vivia, da maneira como eu me lembrava.

Acabei dormindo no meio do caminho.

No dia seguinte eu me encontrei bastante fraco e com uma dor de cabeça desgraçada, percebi que eu necessitava comer caso eu quisesse me manter naquele ritmo de tédio.

Me lembrei que dentro da geladeira havia ovos e como era melhor comer do que estragar, decidi fazê-lo. Porém, com medo de que o barulho e o odor atraíssem algo que eu não desejasse, decidi comê-lo cru. Então coloquei em um copo e o comi (ou bebi?). Como eu estava com fome não liguei muito para a textura e nem o sabor, mas anotei em meu caderno que se eu fosse fazer isso de novo, colocaria pelo menos um pouco de sal.

Depois disso me mantive fazendo o que havia feito no dia anterior, porém havia começado o livro desde o início, para tentar compreender as partes que não compreendi e ler as partes que eu pulei, para ter melhor compreensão.

Naquela noite eu também treinei, porém fiz um treino diferente. Fiz agachamentos e o que eu chamo de corrida simulada (é correr sem sair do lugar). Até cair de exaustão.

Fiz algumas anotações e fui dormir.

No dia seguinte, reli o livro, não comi, fiz abdominais e agachamentos, fiz anotações e terminei o mapa e fui dormir.

No outro dia, reli o livro outra vez, comi ovos crus, fiz flexões e corrida simulada, anotações, coloquei alguns detalhes no mapa e fui dormir.

Só apenas no terceiro dia após essa rotina de leitura e exercícios que eu comecei a me alongar, pois foi apenas no dia anterior que conseguir ler mais de cem páginas do livro, e assim, consegui aprender sobre a importância dos alongamentos.

Depois disso, minha semana caminhou desta maneira. E o engraçado foi que, após aquele dia dos tiros, eu nunca mais consegui escutar tiro algum sendo disparado, o que fez essa semana ser bastante tranquila.

No domingo, início da segunda semana desde a queda da sociedade, outro anúncio televisivo apareceu. Desta vez, quem falou foi o novo ministro da defesa (o antigo padeceu pela doença) e o ministro da saúde. Primeiro o ministro da defesa disse sobre a necessidade do cidadão comum se defender contra os infectados e algumas dicas de como matá-los. Ele disse que, por invadir o cérebro do hospedeiro, o vírus se torna dependente do funcionamento dos outros órgãos, por isso é possível matá-los atirando em partes simples do corpo, porém o infectado ainda resistiria, demorando cerca de duas horas para o infectado morrer sem o seu coração, conseguindo viver uma semana inteira com apenas um litro de sangue. Outras partes de importância são os pulmões e o estômago, sendo o fígado e o baço regiões de pouca importância, embora todas essas formas não tenham um efeito imediato mortal, demorando algum tempo para a morte do infectado.

O ministro disse que a melhor maneira de se matá-los é atirando na cabeça. Porém o vírus ainda estaria presente no corpo do infectado, eles apenas perderiam a capacidade de controlar o corpo do hospedeiro.

Depois disso, o ministro da saúde subiu no cadafalso e explicou como foram feitos os testes e que eles já pesquisavam uma vacina para o vírus. Ele também disse que eles são bastante sensíveis ao odor e ao som, tendo alguma preferência por ambientes fechados, longe do sol, dizendo: “foi comprovado seu repúdio pela luz solar através de certos testes, por isso é correto afirmar que é durante a noite onde eles normalmente sairão para se reproduzir (caçar). Diversos médicos e alguns pesquisadores estão chegando a um consenso entre os seus hábitos, porém demorará um tempo até que tudo seja comprovado. ”

Após isso o hino nacional tocou e a imagem da bandeira do Brasil apareceu, escrito:

“Ordem e progresso”

Eu mantive a televisão ligada, porém diminui o volume. Era uma boa coisa saber que eles são atraídos pelo odor e pelo som, assim eu poderia ligar a luz durante a noite, porém me lembrei dos tiros de fuzil e decidi não ligar.

Meus exercícios físicos não machucavam ninguém no fim das contas (a não ser a mim mesmo, o que não vem ao caso agora.).

Então a semana passou.

Os ovos acabaram e acabei comendo o miojo cru. Para dar algum gosto, misturei o tempero com água gelada e bebi junto com o miojo. Segundo o livro de anatomia, era necessário que eu consumisse fibra alimentar para a manutenção do meu corpo, porém eu não queria me dar o luxo de ter que ir lá para fora. Eu já tinha o plano de passar o mês comendo miojo, parecendo até que eu tinha alguma esperança de que a sociedade se restaurasse e o mundo voltasse a ser como era antes.

Meus dias continuaram o mesmo durante umas duas semanas, sendo que eu consumi apenas 6 miojos durante esse tempo, comecei a sentir os efeitos de ficar muito tempo sem comer algo decente. Estava me sentindo fraco e parecia que eu poderia adoecer a qualquer momento.

Eu também comecei a me sentir um tanto quanto louco e comecei a planejar de invadir as casas alheias. Eu poderia fazer isso, caso eu fizesse em silêncio para não chamar atenções indevidas. Porém eu não tinha ideia de como fazer…

Me lembrei que, em uma das coisas que eu herdei do meu pai, havia um facão, parecido com aqueles que se corta cana, que meu pai ganhou quando ele era do exército. Ela estava em uma das caixas que eu trouxe para o meu pequeno apartamento.

Eu decidi procurá-lo sem fazer muito barulho, pela bagunça que era o meu apartamento.

Todavia, de repente, eu escutei tiros enquanto o procurava. Faziam três semanas que eu não escutava nada do tipo, então fiquei um pouco surpreso sobre. Tentei olhar pela janela e ver o que era, porém, do meu ponto de vista, tudo era muito vago para se ver qualquer coisa e pensei que mais uma vez ficaria a mercê da ignorância.

Uma grande surpresa foi ver um grupo entrar no beco escuro durante a noite, armados com fuzis AK-47, muito parecido com os que várias facções criminosas utilizavam.

Diversos disparos foram feitos, e pentes inteiros foram descarregados. Eu observei bem atentamente para o grupo sobrevivente, sendo que nele havia apenas 6 pessoas: 5 homens, alguns deles me falham a memória, sendo outros meio pardos, um pouco negros, um pouco brancos; e uma mulher que me lembro bem, que era negra. O grupo carregava mochilas grandes e atiravam sem pudor contra os diversos zumbis que vinham aos montes pelas duas entradas do pequeno beco.

Os zumbis ensanguentados, ora caíam com seus crânios manchados com buracos do tamanho de uma laranja e não se levantavam mais; Ora caíam completamente furados e ensanguentados e se arrastavam pelo chão ainda em caça.

O grupo gritava: “atirem na cabeça, na cabeça! ”, parecendo até que havia alguma esperança para eles.

Quero dizer, eu poderia alertá-los sobre a corda, mas eu sinceramente não queria me envolver com eles, então observei a luta deles, com os tiros correndo a torto e a direito.

Entre os infectados: alguns eram rápidos e ágeis, outros eram lentos e pesados, e uma pequena maioria nem parecia se dar muito bem com seus próprios corpos. Eu acabei anotando essa observação em meu caderno: “Existem diferentes tipos de infectados. Cuidado! ”

Dentro do beco, os infectados que chegavam mais perto eram recebidos com coronhadas e facadas. Alguns dos sobreviventes mudaram de armas e começaram a usar pistolas para combate a curta distância. Muitos infectados caíam, porém, a quantidade dos que surgiam no beco era grande.

A munição também passou a acabar, pois como muitos sabem, munição não é infinita, então isso ilustrou claramente um sinal de vitória por parte dos infectados. Eu até senti um pouco de pena, já que eles estavam indo realmente bem. Até me perguntei que cagada eles fizeram para acabar naquele beco.

A luta continuou por míseros dois minutos até a munição acabar e todos do grupo serem contaminados por mordidas e arranhões. Depois disso eles foram despedaçados e estripados pela horda de zumbis.

Pela manhã seus corpos continuavam por lá, junto com as armas e mochilas cheias de suprimentos, porém, desde o caso do último homem que eu vi despedaçado ter sumido de repente, fiquei com bastante medo de descer e resgatar toda aquela preciosidade.

Decidi manter o meu cotidiano como ele era: lendo e treinando o meu físico, e passando fome. Porém, num outro dia, o seguido do tiroteio no beco, uma menina pequena, também negra, bem parecida com aquela mulher do dia anterior, apareceu.

Ela olhou para os cadáveres, para as armas e suprimentos. Eu não entendi ao certo o que era aquilo acontecendo, e pensei que fosse apenas uma sobrevivente aleatória em busca de suprimentos.

Ela começou observando os cadáveres, tentando reconhecê-los. Acho que ela tentou observar pelas roupas. Depois de um longo minuto observando-os, ela caiu ao solo, chorando. Eu tentava imaginar o motivo, já que, como apenas uma testemunha ocular, meus sentimentos eram totalmente a parte daquele grupo.

Eu me lembro que ela começou a dizer algo, enquanto tentava sorrir com lágrimas ao rosto. Eu continuei observando aquela cena, até que a garota de repente pegou uma das armas que estavam a disposição e colocou em sua boca. Depois de fechar os olhos por um simples segundo … bang, um tiro foi disparado.

Seu sangue se espalhou pelo solo, onde o sangue, já seco, do dia anterior, se encontrava. Em seguida uma horda de infectados vieram para devorar a sua carne.

Eu, que não estava tão longe observando a cena, fiquei, totalmente, chocado e imaginei: “Se fosse eu no lugar dela, o que eu teria feito… ”

Após os zumbis terem ido embora, eu desci em tributo a menina.

Eu desci pela corda armado com o facão.

Me lembro de tremer de medo enquanto andava o mais silenciosamente possível por aquele beco e me lembro de ter dado um golpe no crânio de cada um dos seis cadáveres para confirmar que eles estavam mortos.

No fim peguei cada uma das mochilas e armas, sem nenhum remorso.