ESE: Capítulo 3

Dias felizes

 

Enquanto passava a mão levemente pelo rosto pálido do menino ele pensou em tudo que eles passaram juntos.

 

Ele comprou One de uma família composta de quatro pessoas. Essa família era bem pobre e por causa disso acabaram vendendo One por algumas dezenas de moedas de cobre. Senhor Liu nunca soube se aqueles eram ou não a família de One, mas isso também não importava.

 

Ele podia comprar quantas crianças quisesse, mas ele comprou One por um motivo. Seus olhos. Olhos azuis tão puros quanto cristais. Pareciam brilhar. Nessa época One tinha apenas 10 anos e era ignorante ao resto do mundo.

 

Após ver aqueles olhos um de seus desejos foi despertado. Ele adorava manchar o que era puro. E então ele pensou o quão prazeroso seria mostrar a aqueles olhos puros o terror do mundo. Por isso ele o comprou. Após comprar One ele trouxe-o para a Mina dos Júniors e o fez trabalhar. Os olhos do menino ainda brilhavam com pureza. Mesmo passando fome e sendo diariamente forçado a trabalhar ele continuava puro.

 

Senhor Liu ficou ainda mais interessado no menino. Após ver que o menino não parecia ser afetado pelo seu ambiente, ele resolveu começar a torturá-lo.

 

Uma vez ao mês ele pessoalmente chicoteava as costas e o peito do menino.O menino chorava de dor, mas em nenhum momento sua pureza parecia ser afetada.

 

E então ele aumentou a dose.A cada 15 dias ele chicoteava o menino. O obrigava a andar em brasa quente. Havia vezes que o menino não obedecia suas ordens e por isso ele tinha que ameaçá-lo usando as outras crianças. Como o menino era uma boa pessoa e não queria ver ninguém se machucar ele começou a obedecer todas suas ordens.

Ele o chicoteava. O obrigava a andar na brasa e enfiava bichos estranhos em seus ouvidos. Não se sabe para onde iam esses bichos. Eles podiam estar vivos e bem dentro do corpo de One ou já terem morrido.

 

A pureza nos olhos do menino parecia estar cada vez pura. O menino anteriormente inocente parecia estar ficando mais esperto, mas mesmo assim ele ainda continuava sendo uma boa pessoa.

 

Na mente de Senhor Liu, One se tornou um brinquedo inquebrável. O menino parecia não ser afetado por nada e então ele foi a loucura.

 

Ele arrancou as unhas dos pé do menino. Após fazer isso ele o chicoteava e colocava mais bichos estranhos em seus ouvidos. Isso estava ficando rotineiro. Sempre que arrancava as unhas do menino ele pedia as empregadas que o tratassem. Apesar do menino ainda continuar com seus olhos puros ele ainda sentia dor e poderia morrer, por isso Senhor Liu tomava muito cuidado com isso.

 

Ele foi torturado assim por 2 anos. O menino nem ao menos gritava mais. Seus olhos continuavam com a mesma pureza de sempre.

 

O brinquedo favorito do Senhor Liu! Esse se tornou o apelido do menino.

 

A tortura aumentou a um grau absurdo. Ele cortava a pele do menino diariamente, retirava todas suas unhas e o chicoteava loucamente.Em uma certa vez ele até arrancou alguns dentes do menino. Ainda bem que eram dentes de leite.

 

Após um tempo chicotear já não era suficiente e por isso ele começou a usá-lo como um boneco de treinamento.

 

Ele jogava o menino no ar e chutava seu estômago. Chute e socos. O menino era jogado de um lado para o outro e sangue continuamente saia de sua boca. Quando o menino não conseguia nem mais se levantar  o Senhor Liu parava. Mandava as empregadas tratarem o menino para mais tarde ele colocar alguns percevejos em seus ouvidos.

 

E então o Senhor Liu foi chamado para resolver uma negociação. Ele não podia perder isso. Ele ficaria rico se a troca fosse bem feita. Por isso ele saiu do castelo e demorou quatro dias para voltar. Ele nunca esperava que quando voltasse o seu brinquedo morreria de uma forma tão sem graça. A morte que o menino deveria ter não aconteceu. Ele não morreu em agonia. Seus olhos continuaram puros até a sua morte.

 

*Suspiro*

 

A mão que ele passava levemente pelo rosto de One de repente se foi em direção aos olhos. Com dois dedos ele abriu um dos olhos do menino que estavam fechados.

 

*Woosh*

 

Senhor Liu pulou rapidamente para trás. Suor escorria de suas costas e de sua testa. Seu estava pálido e seu corpo tremendo.

 

O Feitor que estava calmamente parado do lado de fora da cela ficou surpreso e assustado: ”O que foi, meu Senhor??”

 

*Gulp*

Ele engoliu sua saliva cheio de medo.

Senhor Liu levantou o seu dedo indicador da mão direita e falou tremendo: ”P-pegue esse c-cadáver!Iremos jogá-lo no mar…”

 

O Feitor não entendeu o porquê da mudança de atitude de seu Senhor, mas não perguntou nada.

 

Ele entrou na cela e pegou o corpo com os dois braços.One parecia minúsculo enquanto nos braços do Feitor.

 

Senhor Liu foi em sua frente e o seguiu. Em alguns minutos eles estavam na beira do penhasco que ficava na frente do castelo.

 

Abaixo havia um mar. As ondas iam e vinham. Elas acabavam batendo nas rochas que seguravam o penhasco.

 

O Feitor olhou para o Senhor Liu e o último devolveu o olhar.

 

“Jogue com toda força e o mais longe possível.”

 

O Feitor assentiu e então jogou o cadáver com toda sua força.

 

*Woosh*

 

O cadáver viajou 50 metros até cair no meio do mar. Era uma boa distância. Pouco a pouco o corpo seria levado pelo mar e desapareceria.

 

O Senhor Liu parecia ter voltado a sua calma anterior, mas na verdade seus pensamentos estavam uma bagunça.

 

O que aconteceu com esse menino?Ele definitivamente não é a pessoa que eu torturei por 3 anos…Eu tenho uma sensação ruim…horrível…Eu sempre tentei fazer com que seus olhos puros ficassem cheio de desespero e medo…mas ele não morreu com os olhos assim…Ele morreu de um jeito normal e por isso pensei que seus olhos deveriam estar no seu tom azul normal…mas….eu nunca havia visto aqueles olhos.”

 

Olhos quase que completamente negros….parecia os olhos de uma besta ainda não despertada…Espero não vê-lo novamente..”

 

Senhor Liu se virou e começou a voltar na direção do castelo.

 

O Feitor escutou a última frase de seu Senhor pois foi murmurada, mas ele não pensou muito sobre isso. A mente dos cultivadores eram complicadas.

 

As ondas iam e vinham. Elas batiam nas rochas e água salpicava. No meio do mar um menino desapareceu.